Polêmico e direto como sempre, o vice-presidente Carlos ‘‘Chacho’’ Álvarez (foto) sacudiu ontem o país através de seus assessores, que anunciaram que ele renunciaria a seu cargo. O anúncio da renúncia – que foi oficializado no início da noite – ocorreu 24 horas após a profunda reforma do gabinete realizada pelo presidente Fernando De la Rúa. A modificação ministerial, feita sem consultar Álvarez, foi a gota d’água da tensa relação que colocou o vice em rota de colisão com De la Rúa há vários meses. Nas últimas semanas, o vice havia denunciado atos de corrupção por parte de integrantes do gabinete, além de criticar asperamente a política econômica.
O ministro do Interior, Federico Storani, anunciou que o presidente lamentava a renúncia, e que o governo continuaria investigando os casos de corrupção denunciados por Álvarez. Storani também expressou que a coalizão de governo seria mantida. No entanto, o ministro afirmou que ‘‘não podemos negar que este é um momento de crise, que causou tristeza no presidente’’.
Com sua saída, Álvarez recupera a aura de combatividade que o caracterizou em toda sua carreira política e que estava opaca desde que chegou ao poder. ‘‘Chacho’’ mostra-se ‘‘puro’’ e ‘‘honesto’’ ao sair de um governo que ele mesmo denuncia. Ele é uma das poucas lideranças políticas argentinas não acusadas de atos de corrupção.
Álvarez já olha para as eleições parlamentares do ano que vem, onde considera-se que com seu discurso de denúncias e de críticas à modorra do governo De la Rúa, poderá arrasar nas urnas.
Uma das principais causas da saída de ‘‘Chacho’’ foi a reforma do gabinete, que alterou metade dos comandos dos ministérios, incluíram duas demissões e a liquidação de uma pasta. A nova estrutura do gabinete deu mais poder a De la Rúa, ao eliminar aqueles que eram críticos do modelo econômico. O ministro da Economia, José Luis Machinea, também ganha mais força. Um dos ‘‘promovidos’’ com a reforma foi o ex-ministro do Trabalho, Alberto Flamarique, envolvido no escândalo dos subornos aos senadores. A permanência de Flamarique no gabinete causou polêmica, já que é o ministro com pior imagem pública.
Embora ao longo da tarde Álvarez tenha enviado através de seus assessores o recado de que sua renúncia não significa o fim da coalizão de governo, poucos conseguiam imaginar como a Aliança UCR-Frepaso poderá ser mantida depois que sua principal estrela saiu do governo.
Não se descarta que, apesar dos anúncios de manutenção da coalizão, parte do Frepaso retire-se do governo, para formar com Álvarez um novo partido. Nesta nova formação, entrariam diversos integrantes do peronismo e da UCR insatisfeitos com a corrupção em seus partidos.
Segundo o analista Rosendo Fraga, ‘‘Chacho’’ é um especialista em criar novos partidos, e a polêmica é o melhor terreno por onde trafega. ‘‘Um cargo executivo o prende muito’’, disse. No governo ficariam os frepasistas ‘‘delaruizados’’, como Flamarique.
A coalizão Aliança UCR-Frepaso foi criada em 1997 sob a égide do combate à corrupção, e com ela infligiu-se a primeira derrota eleitoral parlamentar ao Partido Justicialista (também conhecido como ‘‘Peronista’’). Depois, nas eleições presidenciais de 1999, De la Rúa, representando a UCR, e Álvarez, pelo Frepaso, venceram os candidatos peronistas. Após a posse, em dezembro passado, a convivência dos dois começou a deteriorar-se. De la Rúa perdia popularidade, e arrastaria Álvarez com ele. ‘‘Chacho’’ começou a mostrar que havia algo de podre dentro do próprio governo que integrava e também com a oposição peronista.