São Paulo - Juan José Rendón, chefe do comitê de estratégia do líder opositor Juan Guaidó, revelou ter participado da negociação de uma operação militar estrangeira que buscava capturar o ditador Nicolás Maduro e retirá-lo do poder. Ele deu entrevistas para o jornal americano “The Washington Post” e para a CNN en Español.

Segundo Maduro, um norte-americano confessou ter sido contratado para treinar grupos incumbidos de levá-lo aos EUA
Segundo Maduro, um norte-americano confessou ter sido contratado para treinar grupos incumbidos de levá-lo aos EUA | Foto: Marcelo Garcia/Presidência da Venezuela/AFP

No domingo (3), o regime venezuelano anunciou a interceptação de um grupo de mercenários, chamados por Maduro de terroristas, que tentava entrar no país a bordo de lanchas, vindas da Colômbia. Segundo as autoridades do país, oito pessoas morreram na operação e ao menos 19 foram presas.

Na quarta (6), Maduro foi à TV e exibiu o depoimento de um norte-americano, identificado como Luke Derman, que disse ter sido contratado para treinar grupos de venezuelanos na Colômbia, ir com eles para Caracas, capturar Maduro e levá-lo aos EUA.

Segundo reportagem do “Washington Post”, que se baseia em conversas com mais de 20 pessoas, incluindo Rendón, o planejamento da suposta operação começou em setembro de 2019, em Miami. Ali, representantes de Guaidó se reuniram com Jordan Goudreau, um ex-militar de uma das forças especiais do Exército dos EUA.

Goudreau, que criou a empresa de segurança privada Silvercorp, disse que teria 800 homens prontos para entrar na Venezuela e capturar Maduro e seus principais líderes, com Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Constituinte.

Rendón, que vive exilado em Miami, é chefe do comitê de estratégia de Guaidó e disse que foi representá-lo nos encontros para tratar da operação. "O governo legítimo do presidente Guaidó não controla nenhuma força policial no país, portanto todos os cenários são analisados: alianças com outros países, militares que estão dentro [da Venezuela], uso eventual de atores que estão fora, como militares aposentados", disse Rendón, à CNN.

Segundo ele, advogados foram consultados sobre a operação. Eles disseram que o conceito jurídico de "inimigo universal", aplicado para processar piratas que atuam em alto mar, poderia ser usado contra o regime venezuelano.

Em outubro, foi assinado um contrato, que definia explicitamente o objetivo do acordo: "uma operação para capturar/deter/remover Maduro (...) e instalar o presidente reconhecido da Venezuela, Juan Guaidó".

Atual presidente da Assembleia Nacional, de maioria opositora, Guaidó foi reconhecido no início de 2019 como presidente interino da Venezuela por mais de 50 países, incluindo Estados Unidos e Brasil.

No entanto, não conseguiu assumir o controle da Venezuela. Acusado de fraudar as eleições de 2018, o ditador Nicolás Maduro segue no poder com apoio das Forças Armadas e de países como China e Rússia.

O “Washington Post” publicou em seu site uma íntegra do contrato, que exibe assinaturas de Rendón, Guaidó e mais duas pessoas. O documento foi fornecido por Goudreau.

O jornal relata ter tido acesso a uma gravação de uma conversa na qual Guaidó diz concordar com a ação. "Nós estamos fazendo a coisa certa por nosso país", teria dito o líder opositor.

Rendón, no entanto, afirma que Guaidó não assinou esse contrato e que o líder opositor tinha conhecimento apenas de um "plano exploratório", sem saber dos detalhes de como ele seria realizado. Guaidó nega ter assinado o documento ou ter se envolvido na operação e acusa o regime de montar uma encenação para prejudicá-lo.

O aliado exilado em Miami, por sua vez, confirma ter firmado um contrato, mas que as ações previstas nele nunca foram realizadas. Segundo ele, após a assinatura, Goudreau passou a agir de forma errática e não foi capaz de provar que tinha a estrutura prometida.

A operação custaria em torno de US$ 500 milhões (R$ 2,9 bilhões), mas, segundo Rondón, houve uma negociação, que baixou o valor para US$ 219 milhões (R$ 1,2 bilhão).

O valor seria pago depois da queda de Maduro, com os ganhos de exportações de petróleo da Venezuela, sob o futuro governo de Guaidó, além de dinheiro a ser confiscado de membros do governo Maduro.

O ex-militar pediu US$ 1,5 milhão (R$ 8,7 milhões) adiantados. Rendón, porém, disse que deu apenas US$ 50 mil (R$ 291 mil), pagos do próprio bolso. "Antes do presidente Guaidó, estou nisso há 20 anos e sempre financiei esta luta. Quanto vale a liberdade da Venezuela?", afirmou.

Segundo o venezuelano, a confiança entre os dois lados se perdeu nessa época, em novembro, e a partir daí os opositores passaram a considerar que a ideia havia sido descartada. "Nunca demos luz verde", disse Rendón.

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