Ricos divergem na questão ambiental
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de junho de 1997
Paulo Sotero Agência Estado, Denver (EUA) 
Divergências profundas entre os Estados Unidos e Japão, de um lado, a Europa, de outro, envenenaram as discussões dos temas ambientais durante a reunião anual dos líderes das potências industrializadas, que terminou ontem em Denver. A discórdia entre os ricos sobre novas metas de controle de emissão de gases poluentes, que provocam o efeito estufa na atmosfera e ameaçam a camada de ozônio, e a proteção de florestas será o pano de fundo da sessão especial que as Nações Unidas realiza a partir de hoje, em Nova York, para avaliar o pouco progresso realizado na implementação das metas acordadas na Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento que reuniu mais de 130 chefes de Estado e governos no Rio de Janeiro, cinco anos atrás. O presidente Fernando Henrique Cardoso abrirá o encontro.
Os quatro países da União Européia representados em Denver - Alemanha, França, Inglaterra e Itália - encontraram forte resistência dos Estados Unidos, Japão e Canadá à sua proposta de redução de 15% das emissões de gases produzidas pela queima de combustíveis, em relação ao nível de 1990, até o ano 2010. Segundo um assessor do governo alemão, o chanceler Helmut Kohl classificou a questão, em suas conversas a portas fechadas com os demais líderes, como a mais difícil da reunião de Denver. O novo ministro das Relações Exteriores da Grã-Bretanha, Robin Cook, deixou clara a natureza da divergência chamando atenção para os limites que a necessidade da preservação do meio ambiente impõe ao modelo econômico dos Estados Unidos no momento em que o presidente Bill Clinton trombeteava o modelo americano como o caminho que a Europa deve seguir para resolver seus problemas de desemprego e crescimento mais acelerado.
Para os líderes dos Estados Unidos e o Canadá, disse Cook, é muito difícil lidar com uma audiência doméstica que ainda vive numa cultura de carros particulares extravagantes e consumo generoso de energia barata. Mas, para os europeus e para o resto do mundo, a questão é alarmante, afirmou ele. O estilo de vida dos Estados Unidos e de alguns outros lugares não pode ser sustentado muito além de mais um quarto de século sem que haja sérios efeitos sobre o nosso clima, disse Cook.
Durante a reunião dos líderes, Kohl apresentou um relatório produzido pelo parlamento alemão mostrando que as emissões de gás carbônico produzidas pelos Estados Unidos aumentaram entre 1990 e 1994 e representam hoje praticamente um quarto da poluição atmosférica do planeta, ou 24,25% . Em seguida vem a China, com 13,3%, onde as emissões também subiram mesmo período. Na Rússia e nas antigas repúblicas soviéticas elas caíram para 11,7%. A Ásia, sem a China, respondia por 9,6% da emissão total de gases em 1994. O Japão, sozinho, representava 5,37%. Sob a pressão dos europeus, Clinton concordou em princípio em discutir uma nova data para a redução das emissões mas não com uma meta quantitativa.
Reagindo à posição americana, que tem o apoio do Japão e do Canadá, os líderes europeus travaram uma proposta de Washington para condicionar a concessão de garantias de créditos por organizações financeiras oficiais à política ambiental dos países beneficiários. Os EUA recusaram créditos do Eximbank, por exemplo, para a usina hidrelétrica das Três Gargantas, na China, por exemplo. Embora reconheçam a importância necessidade de preservação ecológica nos países em desenvolvimento, os europeus disseram que vêem na proposta americana uma tentativa de transferência de responsabilidades, passando a outros países o fardo das medidas de preservação quando os próprios EUA não estão dispostos a assumir compromisso para a redução de suas emissões de gases poluentes que ameaçam o clima do planeta.


