Revelação de veterano choca cubanos em Miami
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sábado, 18 de abril de 1998
Edinelson Alves Especial para a Folha 
Todo ano os exilados cubanos que vivem em Miami fazem manifestações para recordar a fracassada tentativa de invadir Cuba na madrugada de 17 de abril de 1961. Mas a revelação do veterano Julio Pestonit de que ele e outros companheiros praticaram canibalismo para sobreviver enquanto fugiam da Baía dos Porcos para não serem presos ou mortos pelos soldados de Fidel Castro, chocou a opinião pública.
A afirmação de Pestonit caiu como uma bomba entre os milhares de exilados da Flórida.Cheguei a comer parte das vísceras do cadáver e bebi, junto com outros, o sangue de um companheiro morto. Todos haviam concordado em fazer, se isso fosse necessário para sobreviver. Foi uma loucura. Estávamos desesperados e foi como estar no inferno, recordou emocionado.
Pestonit fugia num barco junto com outros 22 companheiros, dos quais apenas 12 sobreviveram. Eles passaram 16 dias em alto-mar, até que foram resgatados por um barco pesqueiro a 160 quilômetros da foz do Mississipi. Havia um pacto entre os sobreviventes de que esse terrível episódio deveria ser levado para o túmulo. Mas Pestonit disse que decidiu quebrar o silêncio, quase quatro décadas depois, como vingança a decisão do presidente John Kennedy que impediu a participação da força aérea americana durante a invasão, o que segundo ele teria sido responsável pelo fracasso do desembarque da Brigada 2506 em solo cubano.
Um outro sobrevivente daquela embarcação, José Enrique Dausá, que também mora em Miami, confirmou ser verdadeiro o depoimento de Pestonit. Mas fez uma ressalva: dos 12 resgatados com vida, quatro não concordaram em praticar canibalismo. Isso teria provocado uma divisão entre o grupo durante os dias em que passaram em alto-mar. Dausá disse que ele, Nelson Torrado, Armando López Estrada e Angel González não se alimentaram dos companheiros mortos. Com essa revelação Dausá deixou implícito que além de Pestonit outros sete sobreviventes tiveram a horrível experiência. A história do canibalismo é mais uma descoberta marcante resultante da fracassada tentativa de invasão de Cuba que se transformou num verdadeiro pesadelo para os milhares de exilados.
Por outra parte, o líder da revolução cubana, Fidel Castro, afirmou nesta semana que na América Latina não há condições para a luta armada, comum há três décadas. Ante mais de 2.500 mulheres de 75 países, reunidas em Havana no Encontro de Solidariedade entre Mulheres, Castro disse que, ante os atuais problemas do mundo unipolar e neoliberal, há três décadas teria sugerido uma revolução armada na América Latina. Mas agora, acrescentou, não existem condições para buscar os objetivos por esse caminho.
Até a década passada, a revolução cubana apoiou diversos movimentos rebeldes na região. Fidel Castro Ponderou que entre as causas do fracasso do movimento revolucionário de então esteve a divisão da esquerda no continente, como consequência das divergências entre os PCs da China e da URSS.
Castro afirmou que, hoje, os partidos de esquerda poderão triunfar em eleições, o que seria um passo à frente, mas não poderão mudar o sistema globalizado e neoliberal, que se estende pelo mundo. Resta então, concluiu, um caminho tremendo, o da consciência, para combater o neoliberalismo.


