Responsável pelo caso Jean Charles renuncia
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quinta-feira, 02 de outubro de 2008
Pedro Dias Leite<br>Folhapress 
Londres- Depois de resistir firmemente no cargo por mais de três anos após o assassinato do eletricista brasileiro Jean Charles de Menezes, o chefe da polícia britânica, Ian Blair, acabou forçado a renunciar ontem por razões políticas, 16 meses antes do final de seu mandato.
Blair caiu porque o novo prefeito de Londres, Boris Johnson, do Partido Conservador, pediu a ele, de modo agradável, porém firme, que deixasse o cargo. O chefe da Metropolitan Police está subordinado ao governo nacional (do Partido Trabalhista, assim como o prefeito anterior, Ken Livingstone), mas trabalha em contato próximo com o prefeito londrino. Sem o apoio de Johnson, sua situação, que já era frágil, se tornou insustentável.
Até o último momento, o chefe da polícia se recusou a reconhecer a gravidade de erros cometidos pela força desde que ele assumiu, em fevereiro de 2005. Não estou renunciando por causa de nenhum fracasso da minha corporação nem por causa das pressões do trabalho. E as muitas histórias sobre isso são exageradas, disse Blair. Nas 452 palavras de seu discurso de saída, em nenhum momento pediu desculpas.
Em nota, a família de Jean Charles se diz chocada com a notícia e que a declaração de Blair mostra que a polícia se recusa a reconhecer sua culpa.
Blair ficou sob fogo cerrado desde os primeiros meses de seu mandato. O assassinato de Jean Charles ocorreu em 22 de julho de 2005, 15 dias depois de atentados a bomba deixarem 52 mortos e centenas de feridos em Londres.
Uma investigação independente da polícia sobre a morte do brasileiro criticou duramente tanto a desastrada operação quanto a conduta de Blair depois do incidente, por bloquear as investigações.
Nos últimos meses, Blair estava desgastado não só pela morte de um inocente pela sua polícia, mas também por questões internas e administrativas. Era acusado por alguns de seus mais graduados auxiliares de manter uma política racista na corporação. Ontem, um jornal divulgou que ele pagou a um amigo para melhorar sua imagem, antes de assumir o cargo. Blair nega que tenha feito alguma coisa errada.
Na semana passada, a pressão sobre Blair aumentou, com o início da mais ampla e transparente investigação até agora sobre o assassinato do brasileiro, que ainda deve durar mais dois meses. Sua saída não muda nada, diz a família na nota.
Na tarde do dia em que Jean Charles morreu, Blair disse que a morte tinha ligação direta com a operação anti-terrorismo e que o homem se recusou a obedecer. Depois, a polícia ainda divulgou que o brasileiro usava roupas pesadas que poderiam encobrir bombas -o que era mentira- e que agia de modo estranho -o que imagens não confirmaram.
Durante seu tempo à frente da polícia, houve uma queda nos índices de criminalidade, mas um surto na morte de jovens em brigas de gangue espalhou uma sensação de insegurança em várias cidades britânicas.


