Resistência ocupa praça e redes sociais
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quarta-feira, 27 de junho de 2012
Lúcio Flávio Moura <br>Enviado a Ciudad del Este 
Ciudad del Este - Algumas quadras ao sul do trecho urbano da Ruta 7 - cujos canteiros foram completamente pichados com frases contra o impeachment do ex-presidente Fernando Lugo - em frente à prefeitura de Ciudad del Este, jovens vestidos com a albiroja (uniforme da seleção nacional), dançam e cantam, ajudados por um grupo de esforçados percussionistas. Tentam vencer a evidente indiferença das ruas de um centro comercial tão dinâmico quanto caótico. É preciso fazer barulho para ser ouvido na segunda maior cidade paraguaia e os cerca de 400 manifestantes que ocupam a Praça da Paz se desdobram para cumprir o desafio. O aparelho de som é regulado nas alturas. A trilha do protesto inclui canções tradicionais do cancioneiro paraguaio mas não ignoram ritmos importados, como o rap e o rock and roll, adequados à verborragia de uma manifestação política. A alegria típica de uma reunião universitária é misturada a uma profunda indignação, a de ver o primeiro presidente esquerdista em 60 anos ser destituído do cargo por uma votação do parlamento. ''Queremos mostrar nosso sentimento de decepção e dor. O barulho que fazemos é quase um grito de socorro'', afirma o servidor público Willians Monzón, 30 anos, ator, estudante de filosofia e integrante do Movimento dos Indignados. ''Vamos continuar aqui até que seja necessário'', garantiu.
Monzón assegura que o ápice do protesto será amanhã, quando ele estima que pelo menos 2 mil pessoas marcharão pelas ruas. O grupo não descarta ocupar a metade paraguaia da Ponte da Amizade, paralisando o tráfego intenso por algumas horas. ''Estamos articulando uma manifestação simultanea do lado brasileiro. Já estamos conversando com sindicatos e estudantes de Foz do Iguaçu para que ele bloqueiem o tráfego na ponte também do outro lado''.
Ontem, o grupo fez uma ''preparatória'' para o maior protesto na fronteira desde que a crise institucional se estabeleceu, na semana passada. Percorreram ruas com faixas, apitos e percussão, bloqueando a aduana por 15 minutos, por volta do meio-dia. Outros grupos se manifestaram em outras regiões, como Itapua, Central, Encarnación e Assunção. Hoje prometem fazer o mesmo. ''A ponte é um símbolo, se o tráfego flui, aponta que tudo vai bem. É como um o coração para o corpo. Vamos tentar levar nossa indignação para lá sempre que pudermos. Para tocar o coração da nação. Vamos resistir'', contou a estudante de Direito Maria Perez, 24 anos. Na Praça da Paz, há quem diga que uma greve geral pode ser convocada para a próxima quarta-feira, um movimento que seria engrossado por camponeses sem terra - somente no departamento de Alto Paraná são contabilizados 85 núcleos de sem terra, conforme estatística dos movimentos sociais.
Os apoiadores do ex-presidente Lugo se dividem. Alguns são esperançosos, acreditam que o quadro político pode se reverter e que o ex-bispo pode voltar a ocupar seu posto no Palácio de los López. Outros são céticos, mas ainda assim querem se manifestar. ''Nossa democracia foi roubada. Franco não é nosso presidente. Não vamos aceitar isso'', defendeu Maria.
A assistente social Julia Cardoso, de 35 anos, afirma que a mudança na chefia do Executivo foi algo insólito. ''Como pode um presidente ter apenas duas horas para se defender perante um parlamento? Chamo isso de golpe. Até podemos ser poucos, como diz esta mídia triste e imparcial, mas somos os conscientes''. A ativista Joana Leresma, da Federação Nacional dos Sem Teto, diz que espera um crescimento lento e constante da resistência. ''As pessoas não sabem o que realmente houve. A gente quer fazer o papel de informar e denunciar.
O artista plástico Rafael Esquivel, o Mbururu, 37 anos, diz que representa a comunidade cultural de Alto Paraná e que tem explicação para tão pouca adesão contra a mudança repentina no governo. ''O povo tem medo. Vivemos numa pátria amedrontada''. Mbururu diz que esteve em Assunção no dia da votação que afastou Lugo e que o clima foi de enorme tensão. ''O presidente até poderia resistir, enfrentar o parlamento, mas recebeu a informação de que a praça do palácio estava cercada de franco atiradores. Ele desistiu para evitar um banho de sangue'', argumentou.
No gramado dos fundos da arborizada praça, os universitários contavam com a boa vontade da Nhá Rubia, a cozinheira Florinda Aquino, simpatizante do movimento que decidiu abastecer as centenas de pessoas com o puchero paraguaio, prato à base de carne, verduras e macarrão. Antes mesmo do entardecer, cinquenta pratos já haviam sido servidos. ''Não vai faltar força para a resistência'', brincou.


