Remédio Viagra vira verdadeira mania
Renan Antunes de Oliveira
Agência Estado
A droga contra impotência Viagra está provocando uma revolução de comportamento nos Estados Unidos. Homens jovens e até mulheres usam o produto como afrodisíaco. E gente que tem o problema, mas que só falava dele nos consultórios médicos, agora adora falar do assunto em público, desde que possa incluir na conversa que está usando a pílula milagrosa.
É o tema da hora nos talk shows. Entre seus fãs, um dos políticos mais conservadores, o republicano Bob Dole, candidato derrotado às eleições presidenciais, contou à CNN que fez parte do grupo de pesquisas do fabricante do remédio, o Laboratório Pfizer. De Dole ao outro extremo: Hugh Hefner, de 73 anos, o homem que desnudou as mulheres mais bonitas do mundo nas páginas de sua revista, a Playboy. Ele toma Viagra e recomenda. Sexta, apareceu na tevê fazendo propaganda: ‘‘Estou me sentindo como se tivesse 30 anos outra vez.’
Por enquanto, só uma voz de peso está contra seu uso: o escritor Norman Mailer, 75 anos feitos esta semana: ‘‘Homem de verdade não toma’’, sentenciou o guru da literatura americana. Tirando Mailer, desde que surgiu nas farmácias nova-iorquinas no final de março, a ‘‘pílula do amor’’ é uma unanimidade nacional. O remédio é azul. Tem a forma de um diamante. Seu componente ativo é o ‘‘sildenafil citrate’’. Para produzir uma ereção, funciona aumentando a irrigação sanguínea do pênis.
Para quem quiser saber mais detalhes, o laboratório tem um site na Internet: http://www.pfizer.com. Lá, estão a bula, os testes e os diagramas da reação química do remédio. Nas farmácias da Little Brazil, no centro de Manhattan, os turistas brasileiros têm o privilégio de comprar Viagra sem receita médica, a US$ 380 por frasco de 30 comprimidos - balconistas e clientes fazem piadas em voz alta, superando o constrangimento que sempre marcou o uso de remédios para impotência.
‘‘Eu vou levar dois frascos para distribuir entre os amigos em Marília (SP); tem muita gente por lá precisando’’, diz o corretor brasileiro de imóveis Jair Castro, de 46 anos, em tom de piada. ‘‘É mentira, ele vai querer tomar’’, avisa a esposa, Dona Dulce, sorridente. O casal volta para São Paulo na próxima semana, com quatro frascos na bagagem.
Tudo azulConversas desinibidas como esta são a primeira consequência visível do sucesso do Viagra. E eis uma piada de um cartunista de um jornal conservador, do interior do País: o marido chega em casa eufórico, diz para a esposa que tomou sua primeira dose, mas ela vai avisando que está com dor de cabeça.
Tanta promoção espontânea faz com que o Viagra já seja considerado o mais bem-sucedido lançamento da história da indústria farmacêutica. Em apenas 40 dias no mercado, bateu todos os recordes de venda. Deve comercializar cerca de US$ 1 bilhão até o ano 2000 (a previsão inicial era só a metade, e isso até 2003).
Mas algumas histórias de horror também já começaram a circular. No bairro do Queens, um homem de 60 anos teria exagerado na dose, usando dois comprimidos de 100 mg (a dose máxima). Como resultado, conseguiu aumentar muito o fluxo de sangue, mas no lugar errado - acabou com o pé esquerdo inchado.
Além das contra-indicações clássicas, contidas na bula do remédio (precauções no uso por cardíacos e diabéticos), agora existe uma recomendação médica: a Associação de Oftalmologia Americana alerta que quem toma Viagra pode ficar vendo tudo meio azulado, por algumas horas.
Mesmo de pé inchado, olhos azulados e coração ameaçado, o povo compra: o Viagra está vendendo 200 mil receitas semanais nos Estados Unidos. E o contrabando para a Europa e América do Sul já existe. Tudo isso e o remédio ainda pode ficar melhor: a Pfizer já anunciou que seu ingrediente ativo será colocado numa pastilha para se dissolver sob a língua, garantindo assimilação em minutos na corrente sanguínea.
Na fórmula atual, Viagra deve ser tomado uma hora antes das refeições, em jejum - pelos homens. A ressalva é necessária porque mulheres estão usando o Viagra como afrodisíaco. Outro alerta: o fabricante diz que elas não devem tomá-lo.
O Viagra foi testado pela Pfizer por cinco anos antes de ir às farmácias, em 28 de março. Nos testes, foi tomado por 3 mil homens na faixa dos 19 aos 87 anos, com 88% de resultados positivos. Um de seus milagres é produzir ereções até em homens que perderam a próstata em cirurgias.
Calcula-se que haja entre 10 e 20 milhões de impotentes nos EUA, dos quais apenas 5% ainda buscavam tratamento para o problema. Com a explosão do Viagra na opinião pública, os especialistas prevêem que mais gente vai buscar os consultórios médicos - um paciente de 77 anos virou manchete ao pedir mil pílulas para seu médico.

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