Religiosos enfrentam corrente oposicionista
Reali Júnior
Agência Estado
De Paris
O fechamento do diário Salam, um dos órgãos liberais da imprensa iraniana e de oposição aos conservadores do regime, pode ter sido a gota dágua que transbordou, mas essa irrupção de rua dos estudantes não constitui uma surpresa. Há alguns meses que as universidades estavam em ebulição no Irã e confrontos esporádicos eram mais ou menos comuns nos câmpus universitários entre partidários do presidente reformista Mohammed Khatami e do próprio guia supremo da revolução islâmica, Ali Khamenei, o sucessor do aiatolá Khomeini.
O barril de pólvora estava pronto, a espera apenas de uma faísca, o que acabou ocorrendo com as novas pressões sobre os jornais que apóiam o projeto de abertura do presidente liberal contra os defensores da ortodoxia do regime e que pretendem limitar ainda mais os poucos espaços de liberdade ainda existentes com a aprovação de uma nova lei de imprensa pelo parlamento.
As contradições entre os dois grupos vinham se aprofundando nos últimos dois anos, diante da ambivalência do poder, de um lado a sociedade civil reivindicando reformas e de outro um regime religioso arcaico. Agora, assistimos à explosão da violência, pois a situação anterior tornou-se insustentável.
As manifestações se multiplicam em Teerã e diversos outros grandes centros como Tabriz, Ispahan, Racht, espalhando-se rapidamente por todo o país. Anteontem e ontem, a disputa entre os estudantes reformistas e seus simpatizantes de um lado e a polícia e os milicianos do Hezbolah de outro ganhava nova dimensão, não se limitando mais unicamente a uma luta pela liberdade de imprensa.
Trata-se de uma luta pela abertura democrática exigida pela juventude iraniana e porque não dizer, da luta pelo poder. Para Mourad Saghafy, responsável pela revista iraniana Goftegou, os conservadores buscam o confronto imaginando a perspectiva das eleições legislativas de 2000, convencidos que serão derrotados diante da popularidade do presidente Mohammed Khatami. Eles tentam provocar o caos para levar o governo e o próprio presidente à demissão antes do pleito.
Outro especialista iraniano, professor da Escola de Altos Estudos e Ciências Sociais de Paris, Farhad Khosrokhavar, afirma que os conservadores estão totalmente desacreditados junto à opinião pública, após terem tentado uma série de golpes baixos: assassinatos de opositores e intelectuais, mortes de adversários nas prisões, apresentadas como suicídios; prisão de uma dezena de judeus iranianos apresentados como espiões, etc... O objetivo é afogar no nascedouro três movimento sociais importantes no país, o dos estudantes, dos intelectuais e das mulheres que pela primeira vez se manifestaram nas vésperas da Copa do Mundo, há um ano atrás, desafiando leis impostas por Khomeini, exigindo também seu espaço na sociedade.
Também Olivier Roy, diretor de pesquisas do CNRS de Paris, não considera esse movimento como uma febre passageira do movimento estudantil, convencido de que ele é fruto de uma longa maturação, pois no Irã, os estudantes sempre desempenharam um papel muito importante. Isso já ocorreu no passado, quando do movimento para a derrubada da ditadura Xá e se repete agora, mas contra os excessos do regime dos religiosos islâmicos. Trata-se de um país ultrajovem, 64% da população encontra-se na faixa etária inferior a 25 anos, e os jovens podem votar desde os 16 anos. Eles já tiveram uma influência fundamental na eleição do atual presidente reformista, representando a corrente dos intelectuais liberais islâmicos.
Esses estudantes, no passado militantes da revolução, evoluíram nos últimos anos adotando uma posição bem mais liberal, no sentido político, exigindo mais liberdade e um maior espaço democrático. Olivier Roy concorda em gênero, número e grau com seu colega Farhad Khosrokhavar quando afirma que os conservadores pretendem criar o caos e empurrar o guia da revolução Ali Khamenei a demitir o presidente Khatami. Hoje, esses liberais iranianos defendem o regime pluripartidário, eleições livres e respeito ao estado de direito.
De qualquer forma, não será fácil a tarefa dos liberais, pois os conservadores parecem contar manter forte apoio em setores fundamentais do poder, por exemplo, o do guia da Revolução que exerce forte influência sobre as forças armadas, a polícia, o poder judiciário, além da maioria no Parlamento. O resultado da disputa entre os dois grupos é ainda incerta, mas pela primeira vez os religiosos islâmicos há 20 anos no poder enfrentam uma forte corrente oposicionista que poderá modificar os rumos do regime.





