Relatório de promotor ameaça mandato de Clinton
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quinta-feira, 10 de setembro de 1998
Paulo Sotero Agência Estado 
Numa atmosfera cada vez mais grave e tensa, pontuada pela cautela nas palavras e ações dos líderes políticos, os Estados Unidos mergulharam ontem em sua primeira crise constitucional em quase um quarto de século.
A Casa Branca pediu formalmente ao presidente da Comissão de Justiça da Câmara dos Representantes, deputado Henry Hide, para adiar por dois dias a divulgação do relatório que o promotor especial Kenneth Starr entregou anteontem ao Congresso. Starr acusa o presidente Bill Clinton de ter praticado quatro crimes passíveis de impeachment na tentativa de encobrir seu envolvimento com a ex-estagiária Monica Lewinsky. O relatório, porém, deverá ser divulgado hoje.
Sob o impacto dos acontecimentos em Washington, a Bolsa de Valores de Nova York desabou nesta quinta-feira, agravando as turbulências recentes no mercado internacional e sublinhando o risco de vácuo de liderança na capital mais importante do planeta e de uma mudança de sinal na economia dos Estados Unidos que poderiam custar a Clinton o apoio da opinião pública e frustrar rapidamente seus esforços para sobreviver aos escândalo.
De acordo com fontes próximas a Starr, no relatório, redigido como em linguagem direta, o promotor alega que Clintou continuou a mentir e a mentir. Segundo o promotor, o crime de perjúrio, ou falso testemunho, não foi cometido apenas no depoimento que o presidente prestou sob juramento, em dezembro passado, na já arquivada ação civil por assédio sexual movida contra ele por Paula Jones, mas também no depoimento que Clinton deu no dia 17 do mês passado ao próprio Grande Júri, no contexto de uma investigação criminal.
As fontes anônimas da promotoria, citadas pelas agências de notícias, acrescentaram que Starr teria arrolado elementos para provar também que Clinton tentou obstruir o processo judicial contra ele, procurou influenciar o depoimento de outras testemunhas e abusou de seu poder constitucional. Se comprovadas, cada uma dessas acusações poderia configurar os altos crimes e delitos de conduta que a Constituição dos Estados Unidos prevê, em seu artigo segundo, parágrafo quarto, como um dos três motivos capazes de justificar a anulação pelo Congresso do mandato popular do presidente da República. As outras duas são a traição e o suborno.


