A China respondeu ontem aos que criticam a situação dos direitos humanos no país, chamando a comissária dos direitos humanos da ONU de mal informada e retornando o fogo das críticas dos EUA divulgando seu próprio relatório sobre abusos nos Estados Unidos.
A reação veio um dia depois que o Departamento de Estado dos EUA divulgou seu relatório anual dos direitos humanos. Outros países criticados no relatório tiveram reações distintas.
O presidente colombiano Andrés Pastrana, que ontem foi recebido pelo presidente George W. Bush no Salão Oval da Casa Branca, considerou as acusações dos EUA sobre seu país – incluindo abusos cometidos pelas forças armadas colombianas e milícias de direita – ‘‘um relato justo das realidades que estamos vivendo’’.
Em relação a Israel, o líder judeu americano Abraham H. Foxman disse que o relatório dos EUA ‘‘ignora o contexto no qual a violência continua a ocorrer, incluindo o crescente incitamento feito pela Autoridade Palestina e os ataques diários contra civis israelenses’’.
O relatório americano afirma que a situação dos direitos humanos na China sofreu uma deterioração no ano passado e que a China aprisionou milhares de seguidores do proscrito movimento espiritual Falun Gong e intensificou uma repressão no Tibete.
O porta-voz do Departamento de Estado americano Philip T. Reeker citou a repressão da China ao Falun Gong e no Tibete ao anunciar segunda-feira que os Estados Unidos irão patrocinar uma resolução criticando a China na reunião anual da Comissão dos Direitos Humanos da ONU.
O Ministério do Exterior chinês acusou Washington de usar dois pesos e duas medidas. ‘‘O governo dos EUA não fala sobre sua própria situação dos direitos humanos, e ainda assim faz grosseiras distorções da situação dos direitos humanos em outros países’’, disse o porta-voz Zhang Qiyue.
Por intermédio de seu escritório de informação, o gabinete chinês respondeu às críticas com seu próprio relatório sobre ‘‘a deterioração da situação dos direitos humanos nos Estados Unidos’’.
Chamando a democracia americana de ‘‘um jogo de homem rico’’ o relatório cita o baixo comparecimento às urnas como uma prova de que a democracia nos Estados Unidos é ‘‘um conto de fadas’’.
O relatório da China também destaca o grande número de jovens americanos mortos por armas de fogo, a execução de criminosos condenados como adolescentes e o abuso de crianças em prisões juvenis.
A China também reservou duras críticas para a alta comissariada das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Mary Robinson, que afirmou ontem ao fim de uma visita de três dias a Pequim que o tratamento dispensado pela China aos seguidores do Falun Gong ‘‘é inaceitável, viola os direitos humanos, e tem de ser tratado’’. Em discussões com autoridades chinesas, Robinson disse que levantou numerosas reclamações recebidas por seu escritório de tortura, abusos e pesadas sentenças contra membros do Falun Gong.
Mas Liu Jing, que lidera um departamento ligado ao gabinete formado em setembro último para coordenar a repressão de 19 meses da China contra a seita, disse que Robinson estava mal informada.
Liu afirmou que a Falun Gong era uma ameaça social que destruiu dezenas de milhares de famílias e matou 1.600 pessoas, muitas delas ‘‘praticantes obcecados’’ que recusaram a medicina moderna.
Ele rechaçou como rumores afirmações de grupos de direitos humanos dando conta que mais de 100 seguidores já morreram na repressão. O Falun Gong garante que 5 mil de seus membros foram enviados sem julgamento para campos de trabalhos forçados e que 155 morreram.
No Egito, Hafez Abu Saada, secretário-geral da independente Organização dos Direitos Humanos Egípcia, disse que concordava com as alegações do relatório americano de que opositores do governo são perseguidos.
Entretanto, ele afirmou que o relatório teria mais peso caso fosse divulgado por um organismo internacional. Ele disse temer que o relatório possa tocar ‘‘sensibilidades políticas’’ e criar especulações de que Washington está tentando pressionar o Cairo em outras frentes – como tentar conseguir que os palestinos concordem com um tratado de paz com Israel.
Um porta-voz do governo de Mianmá, antiga Burma, acusou que o relatório dos EUA era ‘‘do mesmo tom que o usual e totalmente baseado em histórias fabricadas pelos campos antigovernamentais’’.

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