Marc Braibant
France Presse
De Washington
As relações entre Rússia e o FMI tornam-se cada vez mais tensas à medida que parece mais consistente o escândalo de desvio e de lavagem de dinheiro por parte da Rússia. O FMI está cada dia mais perto do olho do ciclone. Ontem, o diretor gerente do Fundo, Michel Camdessus, disse palavras duras. Em entrevista ao jornal francês ‘‘Libération’’, o diretor gerente do FMI acusou o Banco Central Russo (BCR) de ter ‘‘mentido sobre o estado de suas reservas em 1996’’. É um assunto que vem de longa data. Há um ano, a Procuradoria-Geral russa e o Tribunal de Contas acusavam o BCR de ter desviado para o exterior importantes somas do FMI.
Esse debate toma vulto com a revelação de uma grande operação de lavagem de dinheiro proveniente da Rússia, especialmente através de contas do Bank of New York, que envolveriam US$ 10 bilhões a US$ 15 bilhões, dos quais uma parte viria do FMI. Há uma semana o FMI evitava o assunto e martelava que não existia ‘‘nenhum elemento que comprovasse qualquer envolvimento do FMI ou de dinheiro considerado proveniente do FMI no caso’’.
Para evitar que o assunto piorasse, Camdessus tomou para si as rédeas do caso ontem, declarando ‘‘não querer ver o FMI citado ao lado da máfia ou dos oligarcas russos’’, ao mesmo tempo em que reconheceu que o desvio de dinheiro do FMI não é propriedade exclusiva da Rússia uma vez que isto já havia acontecido antes na América do Sul.
O escândalo terá agora repercussões nas relações entre as prestamistas internacionais e a Rússia. O FMI, por outra parte, preveniu que seu conselho de administração não poderia se abstrair no momento de conceder em menos de um mês uma nova cota de ajuda de US$ 640 milhões.
O Conselho de Administração do FMI está de fato dominado pelos grandes países ocidentais como Estados Unidos, Japão, Alemanha, França ou Grã-Bretanha. São os mesmos países do G-7 que votaram para que o FMI ajudasse a Rússia e, especialmente, o regime de Boris Yeltsin. ‘‘O FMI não estava disposto, mas o Departamento norte-americano do Tesouro, sim’’, destacou Ian Vásquez, analista do Cato Institute.
‘‘É difícil explicar os motivos pelos quais os EUA arrastaram o FMI, apesar das evidências de que as reformas na Rússia não estavam sendo cumpridas e de que o dinheiro tinha sido desviado’’. O secretário do Tesouro americano, Lawrence Summers, pode ser a figura na berlinda neste caso. Em setembro de 98 ante o Congresso, Lawrence Summers destacou que os EUA tinham um interesse particular em apoiar a Rússia e um programa de estabilização do FMI, segundo Vásquez.
As implicações do escândalo nas eleições legislativas russas e presidencial nos EUA são inavitáveis. Antes das implicações políticas, entretanto, é ‘‘a credibilidade do FMI que quebrou’’, concluiu Vásquez, notando que o Congresso americano deve aproveitar a ocasião para exigir mais uma vez controle sobre a instituição financeira.

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