A recontagem dos votos no estado da Flórida, da qual depende o resultado das eleições presidencias da última terça-feira, parecia destinada, ontem à tarde, a agravar ainda mais a crise sem precedentes na história dos Estados Unidos desencadeada por alegações de irregularidade e atos de intimidação de eleitores depois que a primeira apuração mostrou a vitória do candidato republicano, o governador do Texas George W. Bush, sobre seu rival democrata, o vice-presidente Albert Gore, por uma margem de menos de 1.800 votos num total de quase seis milhões.
Com a recontagem concluída em 61 dos 67 distritos eleitorais, a vantagem de Bush sobre Gore havia diminuído em mais de mil votos e caído para a casa dos 405. A rede CNN, por sua vez, acrescentou um novo ingrediente ao drama ao noticiar a descoberta de novos votos, aparentemente em distritos com uma maioria de eleitores democratas, que por razões não explicadas não teriam sido incluídos na apuração.
Com a diferença entre Bush e Gore diminuindo, funcionários eleitorais da Flórida indicaram que o processo de certificação da eleição no estado poderia prolongar-se por mais duas semanas, até o dia 17 de novembro, o prazo final para a chegada e apuração dos votos enviados por correspondência. Esse votos tenderiam, teoricamente, a favorecer Bush, pois geralmente são dados por militares e seus parentes, que estão em serviço no exterior.
Funcionários republicanos no estado de Iowa, onde Gore venceu por uma margem de menos de 5 mil votos em mais de 1,2 milhão, anunciaram ontem que poderão pedir uma recontagem. Gore não precisaria dos 7 votos eleitorais de Iowa para conquistar a presidência, se tiver os 25 da Flórida. Mas a ameaça republicana fez aumentar o clima de tensão, que provavelmente já provocou danos à credibilidade do sistema eleitoral da mais poderosa democracia do mundo.
O chefe da campanha presidencial de Gore, o ex-secretário do Comércio Bill Daley, chegou perto ontem de acusar seus adversários de orquestrarem uma fraude num estado em que o governador é o irmão do candidato presidencial republicano ao pedir aos tribunais que ‘‘examinem seriamente o que pode ser uma injustiça sem paralelo em nossa história’’
A justiça federal, que provavelmente terá um papel central na resolução do impasse, já entrou em ação. Ontem, um juiz federal em Palm Beach começou a ouvir os argumentos em dois processos iniciados por eleitores de Gore para pedir a anulação da votação de terça-feira e a realização de nova eleição para presidente. Eles alegam que a cédula usada era defeituosa e os induziu seja a escolher o candidato errado ou a anular seus votos ao tentar corrigir o erro.
De acordo com funcionários eleitorais em Palm Beach, um distrito fortemente democrata, onde Gore ganhou por uma diferença de 110 mil votos, nada menos do que 19.120 sufrágios foram anulados por conter dois furos na coluna da eleição presidencial. Além disso, o candidato da ultra-direita, Patrick Buchanan, que tem poucas chances de receber uma votação expressiva num distrito majoritariamente judeu e negro, obteve 3.783 votos em Palm Beach, ou 20% de seu total em toda a Flórida. Isso provavelmente explica a discrepância entre os números apurados pelas pesquisas de boca-de-urna feitas em Palm Beach pelo Voters News Service (VNS), e usadas por todas as redes de televisão para projetar os resultados, e os números revelados pela apuração, que as forçou a voltar atrás em sua decisão inicial de dar Gore como vitorioso na Flórida.
O próprio Buchanan reconheceu ontem que houve ‘‘ineptidão’’ no desenho da cédula. ‘‘Eu provavelmente recebi alguns votos (em Palm Beach) que realmente não me pertencem e não me sinto bem a respeito’’, disse.
Na quarta-feira, Bush praticamente proclamou-se vencedor. Ontem à tarde, seus assessores disseram que ele estava trabalhando na lista das pessoas que nomeará para integrar sua equipe de transição.
Acompanhando a recontagem, o republicano James Baker procurou esvaziar ontem qualquer tentativa de anulação das eleições em Palm Beach, o que indica que republicanos e democratas poderão eventualmente levar o caso até à Suprema Corte.
‘‘Eles tiveram uma chance de ter suas vozes ouvidas’’, disse Baker, referindo-se aos eleitores que iniciaram a ação judicial. ‘‘A cédula foi publicada em jornais e exposta em lugares públicos antes da votação em todo o estado da Flórida, como manda a lei, e foi aprovada por um funcionário do Partido Democrata’’, acrescentou. ‘‘E não ouvimos nenhuma reclamação sobre ela até depois da votação’’.
Contra esse argumento há o fato de que a disposição da cédula no aparato mecânico usado na eleição tornou a escolha confusa para muitos eleitores, como sugerem os mais de 19 mil votos anulados - uma proporção muito maior do que em outros distritos.
O fato de Gore ter vencido a votação popular não pesa na decisão do impasse na Flórida. O próprio vice-presidente disse, na quarta-feira, que respeitará a Constituição. Pela Constituição americana, vence a eleição quem ganhar a maioria dos 538 votos eleitorais. Gore tem, no momento, 260, ou dez menos do que a maioria de 270. Bush tem 246.

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