Raul Salinas 'rouba' a manchete
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sábado, 23 de janeiro de 1999
Renan Antunes de Oliveira Agência Estado 
A Cidade do México girou ontem em função do Papa, quando se tornou a capital pastoral da América. Mas, foi também um dia normal - com agitação da esquerda nas ruas, polícia nos sindicatos, prisão de gente protestando a favor dos índios de Chiapas.
O primeiro indício de que a sexta-feira seria mais um dia autenticamente à mexicana estava na capa do jornal El Excelsior - o anúncio da condenação de Raul Salinas de Gortari a 50 anos de cadeia, por assassinato e narcotráfico, substituiu a manchete da visita papal.
O país que esperava o Papa de joelhos, ficou de boca aberta com o rigor da condenação ao irmão do ex-presidente Carlos Salinas - o sistema judicial mexicano anuncia penas pesadas quando quer demonstrar independência.
Paulina Castagnon, mulher do condenado, aproveitou a visita papal e deu um toque de farsa ao episódio. Saiu às ruas rezando pelo marido, brandindo um retrato da Virgem de Guadalupe: Peço a João Paulo II e a Deus que protejam Raul.
É difícil que ela seja atendida, porque Salinas de Gortari é o diabo em pessoa no México de hoje.
Agora acredito em milagres, ironizou o sindicalista Manoel Murcia, uma das testemunhas no processo. Uma condenação só pode ter sido por influência da visita do Papa.
Entre os agitos do dia, o governo conseguiu encerrar, de forma pacífica, uma confrontação com sindicalistas no Zocalo, a praça central da cidade - a turma queria sangue na calçada, mas os granadeiros agiram com luvas de pelica, preocupados com a mídia internacional.
Em outro front, o arcebispo Norberto Rivera, conservador, mexeu seus pauzinhos na cúpula da Igreja para impedir, na última hora, que um grupo de índios zapatistas assistisse à cerimônia de recepção do Papa.


