O ativista pró-independência do Timor Leste e Prêmio Nobel da Paz José Ramos-Horta chamou ontem o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, de hipócrita, por este vender armas para a Indonésia enquanto condena a opressão em outras partes do mundo.
‘‘Tony Blair é o maior hipócrita da Europa’’, disse Horta, de Lisboa, em uma entrevista telefônica à agência Associated Press. ‘‘Ele é o apresentador da guerra dos Bálcãs, advoga a luta contra a tirania e limpeza étnica enquanto, ao mesmo tempo, autoriza o envio de dois jatos Hawk à Indonésia’’, completou.
A Grã-Bretanha tem sido um dos maiores fornecedores de armas para a Indonésia, com um comércio estimado em cerca de 200 milhões de libras (US$ 320 milhões) por ano.
De acordo com um estudo realizado no ano passado pela organização de direitos humanos Anistia Internacional, o governo trabalhista de Tony Blair concedeu 64 licenças para exportação de armas para a Indonésia desde que assumiu o poder em 1997.
Vários observadores internacionais vêm acusando Jacarta e seus militares de cometer uma grande quantidade de abusos dos direitos humanos em Timor Leste durante seus 23 anos de administração sob a ex-colônica portuguesa.
O governo da Indonésia anunciou ontem que permitirá a José Ramos-Horta visitar pela primeira vez em mais de duas décadas o líder da guerrilha timorense José Alexandre Xanana Gusmão, que hoje cumpre sentença em regime de prisão domiciliar em Jacarta.
O ministro da Informação, Yunus Yosfiah, um ex-oficial do exército que participou da invasão indonésia à ex-colônia portuguesa em 1975, afirmou que seu governo vai garantir a segurança de Horta, que atualmente vive exilado na Austrália e em Portugal.
Segundo Yosfiah, o encontro poderá ocorrer em Jacarta, em uma data anterior ao referendo sobre uma possível independência para Timor Leste, marcado para 8 de agosto. Ele não especificou se Horta - que vem realizando há anos uma campanha contra a administração indonésia em sua terra-natal - poderá visitar Timor.
Falando por telefone de Lisboa, Horta afirmou que estava pensando em ir ao encontro, mas que vai esperar uma confirmação oficial das Nações Unidas. ‘‘Os países que estão promovendo as conversações serão responsáveis por minha segurança’’, disse ele.
Horta nunca foi oficialmente deportado da Indonésia, mas o temor de que ele possar ser preso caso retorne o manteve longe do país. Segundo Yosfiah, Horta não precisa se preocupar mais com sua possível detenção.Arquivo FolhaJosé Ramos-Horta: ‘‘Tony Blair é o maior hipócrita da Europa’’Associated Press

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