Radicais podem assumir o poder na Índia
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terça-feira, 03 de março de 1998
Gilles Lapouge Paris 
France PresseAtal Bihari Vajpayee (e) é candidato do BPJ a primeiro-ministro. Krishna Advani, presidente do partido, comemoraUm em cada cinco seres humanos é indiano e, em 2020, a população da Índia vai ultrapassar a da China. O que significa que as eleições legislativas em que votam 600 milhões de pessoas não modela só o rosto da Índia, mas do mundo.
Os primeiros resultados atestam que a Índia (a maior democracia do mundo, como dizemos, automaticamente, neste caso) prepara-se para seguir um caminho radicalmente contrário ao que vinha seguindo, aos trambolhões, nos últimos 50 anos, desde que arrancou a sua independência dos colonizadores ingleses em 1947.
O vencedor destas eleições é o Partido do Povo Indiano (Bharatiya Janata Party - BJP), cuja doutrina, de extrema-direita, é dominada pelas noções da religiosidade e do nacionalismo hinduístas. Ora, pelo contrário, os pais da Índia (o Mahatma Gandhi, o Pandit Nehru e sua família: Indira Gandhi, assassinada pelos sikhs, e Rajiv Gandhi, assassinado pelos tâmeis) queriam edificar um Estado republicano, leigo e ocidentalizado.
Como se apresentam os resultados do atual escrutínio? A direita nacionalista e religiosa deveria ficar com 250 cadeiras no Parlamento, ou seja, um pouco menos do que a maioria absoluta de 273. A Frente Unida, que agrupa pequenos partidos, tinha 178 cadeiras e dirigia o governo, mas cindiu-se e ficou com apenas 100. Há também o Partido do Congresso que foi, durante muito tempo, o grande partido governamental, o de Nehru e de sua dinastia.
O P do C tinha sofrido com a sua longa prática de cuidar dos negócios públicos. Tinha-se corrompido e desmoralizado. Mas, depois do fim trágico de Indira e Rajiv, parecia capaz de voltar ao primeiro plano graças à bela italiana Sonia Gandhi, viúva de Rajiv, que fez uma campanha eleitoral densa e sedutora. Mas o peso de 50 anos de corrupção e rotina não permitiu que o P do C saísse vitorioso. A sua derrota não é desonrosa, longe disso, pois fica com 160 cadeiras, bem mais do que nas catastróficas eleições de 1996; mas esse resultado faz dele, teoricamente, uma carta fora do baralho.
Portanto, com toda certeza, é o BJP que vai chefiar a próxima coalizão. O que é que se pode esperar disso? Será que ele vai mostrar-se fiel às suas origens? O BJP é o filho da antiga organização pan-hinduísta Rashtriya Suayamsevak Sang (Corporação Nacional dos Voluntários), cujos líderes celebravam, na década de 40, a pureza de sangue da Alemanha nazista.
Felizmente, o BJP evoluiu, desde esses tempos arcaicos. No entanto, até uma data recente, permanecia fiel a um dos pilares de seu catecismo: a recusa do Estado leigo, a rejeição visceral de qualquer religião que não fosse a hindu e, portanto, a rejeição dos 125 milhões de muçulmanos que há no país.
Essa paixão religiosa - tão forte quanto a dos fundamentalistas muçulmanos, embora seja o inverso dela - manifestou-se, há pouco tempo, em 6 de dezembro de 1992, quando fanáticos do BJP arrasaram, em poucas horas, a mesquita de Ayodhya, construída no século 16 por ordem de um imperador mogul.
Quando se pensa no que aconteceu em 1992, só se pode ficar inquieto; ainda mais que, no decorrer da atual campanha eleitoral, alguns chefes do BJP explicaram que os 125 milhões de muçulmanos podiam escolher entre a valise e o caixão. Há, porém, alguns indícios mais encorajadores, pois o BJP, desde que tentou transformar-se em partido governamental, flexibilizou a sua posição. É claro que ele continua a ser um partido religioso, hostil à república leiga de Nehru, mas afasta a idéia de hostilizar a minoria muçulmana, à qual tratou bem até mesmo durante a fase mais inflamada da campanha.
Um outro sinal de moderação: o BJP designou, como futuro primeiro-ministro, um homem idoso, bonachão e tolerante, Atal Bihari Vajpayee, o que deve tranquilizar tanto as minorias muçulmanas indianas quanto os países muçulmanos vizinhos, o Paquistão e o Bangladesh, e a comunidade internacional. O BJP de 1998 não quer mais parecer o agrupamento dos loucos de Deus desejosos de instalar uma teocracia panteísta hindu.
Mas, então, se o BJP, mesmo permanecendo um partido religioso, não pretende desencadear uma caça às bruxas muçulmanas, que linha de ação pode-se prever? Ele quer ser o partido da ordem e da honestidade, no extremo oposto do P do C que, por ter ficado tantos anos no poder, apodreceu.
De cada cinco homens, neste mundo, um é indiano. Portanto, a Índia deve reencontrar, no plano internacional, um lugar digno do número de habitantes que possui. É claro que nós temos um número enorme de favelas, dizem os militantes do BJP, mas também temos indústrias de ponta, satélites, uma informática refinada. A dinastia Nehru quis transplantar para a Índia uma cultura ocidental radicalmente estranha à cultura e ao gênio hindus. É preciso reencontrar as raízes e proteger-se das influências deletérias de um Ocidente em plena decadência moral e social. Temos de devolver ao povo indiano a sua dignidade e a sua identidade.
Belas palavras mas que vão exigir esforços imensos do governo e da população. E depois, há um outro perigo: mesmo que os líderes do BJP tentem evitar o fundamentalismo religioso hinduísta, será que eles conseguirão controlar os fanáticos antimuçulmanos e antidemocratas que o BJP nutriu em seu seio durante tanto tempo? Há quem se pergunte se o simpático Atal Bihari Vajpayee não passa de uma vitrine por trás da qual estariam se agitando peixes mais venenosos.


