France PresseAtal Bihari Vajpayee (e) é candidato do BPJ a primeiro-ministro. Krishna Advani, presidente do partido, comemoraUm em cada cinco seres humanos é indiano e, em 2020, a população da Índia vai ultrapassar a da China. O que significa que as eleições legislativas em que votam 600 milhões de pessoas não modela só o rosto da Índia, mas do mundo.
Os primeiros resultados atestam que a Índia (a ‘‘maior democracia do mundo’’, como dizemos, automaticamente, neste caso) prepara-se para seguir um caminho radicalmente contrário ao que vinha seguindo, aos trambolhões, nos últimos 50 anos, desde que arrancou a sua independência dos colonizadores ingleses em 1947.
O vencedor destas eleições é o Partido do Povo Indiano (Bharatiya Janata Party - BJP), cuja doutrina, de extrema-direita, é dominada pelas noções da religiosidade e do nacionalismo hinduístas. Ora, pelo contrário, os ‘‘pais’’ da Índia (o Mahatma Gandhi, o Pandit Nehru e sua família: Indira Gandhi, assassinada pelos sikhs, e Rajiv Gandhi, assassinado pelos tâmeis) queriam edificar um Estado republicano, leigo e ocidentalizado.
Como se apresentam os resultados do atual escrutínio? A direita nacionalista e religiosa deveria ficar com 250 cadeiras no Parlamento, ou seja, um pouco menos do que a maioria absoluta de 273. A Frente Unida, que agrupa pequenos partidos, tinha 178 cadeiras e dirigia o governo, mas cindiu-se e ficou com apenas 100. Há também o Partido do Congresso que foi, durante muito tempo, o grande partido governamental, o de Nehru e de sua dinastia.
O P do C tinha sofrido com a sua longa prática de cuidar dos negócios públicos. Tinha-se corrompido e desmoralizado. Mas, depois do fim trágico de Indira e Rajiv, parecia capaz de voltar ao primeiro plano graças à bela italiana Sonia Gandhi, viúva de Rajiv, que fez uma campanha eleitoral densa e sedutora. Mas o peso de 50 anos de corrupção e rotina não permitiu que o P do C saísse vitorioso. A sua derrota não é desonrosa, longe disso, pois fica com 160 cadeiras, bem mais do que nas catastróficas eleições de 1996; mas esse resultado faz dele, teoricamente, uma carta fora do baralho.
Portanto, com toda certeza, é o BJP que vai chefiar a próxima coalizão. O que é que se pode esperar disso? Será que ele vai mostrar-se fiel às suas origens? O BJP é o filho da antiga organização pan-hinduísta Rashtriya Suayamsevak Sang (Corporação Nacional dos Voluntários), cujos líderes celebravam, na década de 40, a pureza de sangue da Alemanha nazista.
Felizmente, o BJP evoluiu, desde esses tempos arcaicos. No entanto, até uma data recente, permanecia fiel a um dos pilares de seu catecismo: a recusa do Estado leigo, a rejeição visceral de qualquer religião que não fosse a hindu e, portanto, a rejeição dos 125 milhões de muçulmanos que há no país.
Essa paixão religiosa - tão forte quanto a dos fundamentalistas muçulmanos, embora seja o inverso dela - manifestou-se, há pouco tempo, em 6 de dezembro de 1992, quando fanáticos do BJP arrasaram, em poucas horas, a mesquita de Ayodhya, construída no século 16 por ordem de um imperador mogul.
Quando se pensa no que aconteceu em 1992, só se pode ficar inquieto; ainda mais que, no decorrer da atual campanha eleitoral, alguns chefes do BJP explicaram que os 125 milhões de muçulmanos podiam ‘‘escolher entre a valise e o caixão’’. Há, porém, alguns indícios mais encorajadores, pois o BJP, desde que tentou transformar-se em partido governamental, flexibilizou a sua posição. É claro que ele continua a ser um partido religioso, hostil à república leiga de Nehru, mas afasta a idéia de hostilizar a minoria muçulmana, à qual tratou bem até mesmo durante a fase mais inflamada da campanha.
Um outro sinal de moderação: o BJP designou, como futuro primeiro-ministro, um homem idoso, bonachão e tolerante, Atal Bihari Vajpayee, o que deve tranquilizar tanto as minorias muçulmanas indianas quanto os países muçulmanos vizinhos, o Paquistão e o Bangladesh, e a comunidade internacional. O BJP de 1998 não quer mais parecer o agrupamento dos ‘‘loucos de Deus’’ desejosos de instalar uma ‘‘teocracia panteísta hindu’’.
Mas, então, se o BJP, mesmo permanecendo um partido religioso, não pretende desencadear uma ‘‘caça às bruxas’’ muçulmanas, que linha de ação pode-se prever? Ele quer ser o partido da ordem e da honestidade, no extremo oposto do P do C que, por ter ficado tantos anos no poder, apodreceu.
De cada cinco homens, neste mundo, um é indiano. Portanto, a Índia deve reencontrar, no plano internacional, um lugar digno do número de habitantes que possui. ‘‘É claro que nós temos um número enorme de favelas,’’ dizem os militantes do BJP, ‘‘mas também temos indústrias de ponta, satélites, uma informática refinada. A dinastia Nehru quis transplantar para a Índia uma cultura ocidental radicalmente estranha à cultura e ao gênio hindus. É preciso reencontrar as raízes e proteger-se das influências deletérias de um Ocidente em plena decadência moral e social. Temos de devolver ao povo indiano a sua dignidade e a sua identidade.’’
Belas palavras mas que vão exigir esforços imensos do governo e da população. E depois, há um outro perigo: mesmo que os líderes do BJP tentem evitar o fundamentalismo religioso hinduísta, será que eles conseguirão controlar os fanáticos antimuçulmanos e antidemocratas que o BJP nutriu em seu seio durante tanto tempo? Há quem se pergunte se o simpático Atal Bihari Vajpayee não passa de uma vitrine por trás da qual estariam se agitando peixes mais venenosos.

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