Os franceses - como de resto o mundo - estão horrorizados com os ‘‘paparazzi’’ cuja avidez levou à morte a princesa Diana. Desde as 6 horas da manhã de ontem, uma hora depois do anúncio do falecimento, as rádios transmitem apenas os comentários indignados das pessoas nas ruas.
Mas quem são essas pessoas que se levantaram tão cedo, ainda de madrugada, e que povoam os arredores do túnel da Ponte Alma, sobre o Sena, o túnel em que a mulher mais fotografada do mundo acabou de morrer, um túnel que ainda cheira a sangue? Pois elas são os ‘‘fãs’’, os admiradores de Diana - ou seja, exatamente as pessoas que compram os tais tablóides, jornaizinhos sensacionalistas aos quais os ‘‘paparazzi’’ revendem, a preço de ouro, as fotos indecentes que conseguem tirar.
Assim, o que vemos aqui é um espetáculo contraditório: os consumidores dessas fotos - fanáticos sem os quais o ‘‘pararazzo’’ não existiria - foram os primeiros a vir para a beira do túnel, para declarar em alto e bom som o seu ódio aos ‘‘paparazzi’’.
Mudança de cenário. Estamos agora no Hospital de la Pitié Salpêtriere, onde repousava o corpo da bela princesa. E se olhássemos para os prédios que rodeiam o hospital, enquanto todas as rádios atacavam os ‘‘paparazzi’’, o que veríamos? Em quase todas as janelas, câmeras fotográficas poderosíssimas, com canos longos como de bazucas, que os ‘‘paparazzi’’ ali colocaram na esperança de que o cadáver passasse ao alcance das suas objetivas.
As janelas foram sem dúvida alugadas por quantias fabulosas, na madrugada deste dia triste, pelos moradores dos apartamentos. O que nos faz lembrar o que se passava em Paris, outrora, na Place de Greve (hoje Place de l’ Hotel de Ville, a prefeitura). Era nessa praça que os carrascos executavam os condenados à morte (a machado, no tempo dos reis, na guilhotina, a partir de 1791).
As execuções eram públicas - e marcadas por uma característica ainda mais ignóbil: as pessoas que tinham a sorte de morar em torno da praça tornavam-se ricas, porque os aristocratas pagavam fortunas para desfrutar, de uma dessas janelas, a visão das cabeças dos guilhotinados caindo dentro dos cestos.
Casanova, nas suas ‘‘Memórias’’, nos fala dessas janelas. E conta que cada execução era pretexto para uma festa, em uma dessas casas reunindo a ‘‘melhor sociedade’’ do Reino. Casanova, incansável consumidor de mulheres, não perdia essas festas: e, no livro, observa que as beldades mais castas, mais devotas, praticamente se derretiam quando assistiam a esses horrores.
Não se trata, aqui, de tentar desculpar os ‘‘paparazzi’’, invenção sinistra, moscas do inferno que se alimentam de dejetos, que voam aos bandos para qualquer lugar de onde emane um odor de podridão, verdadeiros urubus do mundo moderno - mas se nos contentarmos em amaldiçoar essas lamentáveis personagens, esses adoradores de cadáveres, estaremos evitando olhar cara a cara o câncer que corrói toda a sociedade.
Os tais ‘‘fotógrafos’’ são apenas ‘‘profissionais’’ ávidos e estúpidos, cínicos, que não hesitam em engordar à custa do sangue dos outros - mas não existiriam se as fotos que produzem não fossem cobiçadas e compradas pelo mundo inteiro.
Assim, na longa e sombria cadeia dos que conspiraram para a morte de Diana, os fotógrafos são apenas a parte mais visível e absurda. Em torno deles, por trás deles, existem forças bem melhor protegidas - e bem mais hipócritas. Primeiro, os jornais. Fala-se muito na ‘‘imprensa marrom’’ dos ingleses (o Sun, o Mirror etc) que, a cada domingo, despeja mentira e podridão sobre todo o Reino da Grã-Bretanha.
Mas os tablóides não são uma exclusividade britânica. A França - que tem o duvidoso privilégio de acolher, nas belas margens da sua Costa Sul, entre Cannes e Nice, as pessoas mais ricas e famosas do planeta - não está nada longe da Inglaterra, em termos de baixeza: os jornais franceses que se alimentam desses segredos de alcova tiram, a cada semana, 3 milhões de exemplares. Ou seja: esses jornais são lidos regularmente por 20 milhões de leitores - um francês em cada três.
Jornais de resto excelentes procuram também satisfazer essa curiosidade: Gala, jornal semanal do grupo Ganz (que publica também revistas excelentes, como Geo), coleciona processos. E, quanto mais processos, mais a sua tiragem aumenta.
Mesmo Paris-Match, revista que já teve seu prestígio, vem-se especializando, há alguns anos, nas famílias reais britânica, monegasca, dinamarquesa ou holandesa - e isso sem falar nos velhos reis decaídos, cobertos de poeira e condecorações, e que continuam a manter romances, como o rei Zog, da Albânia, o rei Miguel, da Romênia. E o Figaro Madame atrai as leitoras contando os amores, os casos ou como se vestem Suas Reais Altezas.
Então? Bastará arrastar para o banco da infâmia os jornais ‘‘de escândalos’’? Sem dúvida - mas por que será que esses jornais são tão ricos? Porque respondem a uma expectativa do público. Os seres humanos - especialmente as mulheres, ao que parece - condenados a vidas mornas, sem graça e sem dinheiro, sem amores e sem surpresas, têm necessidade de sonhar. E se identificam com tudo o que brilha, com os ‘‘outros’’ humanos que levam, segundo eles, vidas de contos de fadas: altezas reais, manequins, atores, homens e mulheres ‘‘da alta’’, bem vestidos, estranhos à esfera do trabalho, da falta de dinheiro e das dificuldades - vidas que imaginam tão belas que chegam a duvidar que essas pessoas sejam mortais com elas, como nós, sujeitos às funções degradantes da fisiologia.
Assim, acima dos ‘‘paparazzi’’ e da imprensa marrom, temos um terceiro grupo de culpados: esses homens e mulheres que, ontem de manhã, já antes das 6 horas, choravam no túnel da Ponte d’Alma, a morte do seu ídolo ensanguentado, amaldiçoando, de passagem, a indiscrição dos ‘‘paparazzi’’.
Será isso tudo? Ainda não. A principal agência francesa de ‘‘paparazzi’’ chama-se, apropriadamente, Boomerang. E, se são ladrões, são ladrões com um objetivo. O bumerangue é um símbolo forte: lança-se a arma para o alto e, essa arma, depois de descrever algumas belas curvas no céu, volta, e atinge quem a atirou.
Podemos compreender a forma de pensar (e de se desculpar, ao mesmo tempo) dessa agência: ‘‘Somos desprezados e atacados, todo o tempo, pelas celebridades, pelos atores, porque violamos a sua intimidade - mas esses artistas ilustres, essas modelos maravilhosas, o que seriam se, no início das suas carreiras, não tivessem sido fotografadas nas areias de Cannes, nas mansões de Malibu, nas boates de Londres? Foram os ‘‘paparazzi’’ que as tornaram famosas - e, agora que elas o são, processam os jornais, se dizem vítimas, perseguidas. E nem se lembram de dizer que, no começo de suas carreiras, eram elas que nos chamavam e que faziam de tudo para sair numa foto.’
Essa análise não é falsa, ainda que em nada diga respeito à princesa que acaba de morrer. Quando se é Princesa de Gales não se tem necessidade de ‘‘paparazzi’’ para se tornar conhecida. Ainda assim: o nome bumerangue é uma excelente escolha para descrever esta nossa sociedade podre, indigna, decadente em que todos são medíocres e cúmplices, e sobre a qual voam, sem um instante de paz, armas cujo maior prazer é ferir precisamente quem as lançou.
Não pretendemos, aqui, diminuir a responsabilidade dos ‘‘paparazzi’’. O que queremos dizer é que se fizermos uma análise séria, descobriremos nesse caso, para além dos fotógrafos, dos jornais, das pessoas ilustres, um culpado maior: a sociedade contemporânea, que se compraz na futilidade, na vulgaridade e nas aparências.
Todos culpados!

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