Quebrar pinhatas para exorcizar o mal no México
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segunda-feira, 25 de dezembro de 2017
France Presse 

Acolman - Para Celia Claudio é difícil ver que uma de suas obras-primas é destroçada a pauladas durante as celebrações natalinas no México. Mas esta artesã continua fazendo suas pinhatas para preservar a tradição surgida no século 16 de quebrar "o mal" através destes objetos coloridos. "Acho feio" ver como as pessoas quebram uma pinhata, "mas também acho bonito que levem uma peça feita por mim. É gratificante", assegura Claudio, uma artesã sorridente de 35 anos, enquanto vende suas criações na Feira da Pinhata de Acolman de Nezahualcóyotl, no cêntrico estado do México.
Com suas formas infinitas e cores vivas, as pinhatas são um elemento central das festas natalinas no México. Confeccionada a partir de uma panela de barro cozido adornada com papel colorido, a pinhata tradicional tem a forma de uma estrela de sete pontas e seu interior contém frutas, balas e até pequenos brinquedos.
Nas "posadas" - festas religiosas que se celebram no México e em parte da América Central durante os nove dias anteriores ao Natal -, os convidados se revezam para vendar os olhos e dar golpes na pinhata com pedaços de pau até que seu conteúdo caia, e então todo mundo se lança com frenesi para obter sua parte dos prêmios.
Embora hoje em dia a pinhata seja motivo de uma alegre confusão nas famílias mexicanas, trata-se de uma tradição surgida no século 16 que mistura os rituais indígenas com o afã evangelizador dos Agostinhos. Esta ordem da Igreja católica se estabeleceu no México para converter os indígenas, e seu convento em Acolman ainda está em pé.
Acolman era então terra de acolhuas, uma etnia indígena que amava a música, cantos, danças e representações teatrais. Assim, os frades decidiram evangelizá-los através destes meios, explica a cronista Araceli Juárez. "O ponto-chave é o brinquedo da pinhata, que se utiliza como uma forma de conversão, para ensinar o que era o mal", diz.
Para os religiosos, o mal era chamativo, como o papel colorido que adorna a pinhata, e eles representaram os sete pecados capitais com cada uma das pontas da estrela. Eles diziam que se os pecados fossem destruídos com uma fé cega, ou seja, com os olhos vendados, se obteriam os frutos desse esforço, em uma metáfora dos doces que as pinhatas contêm, explica.
Para a especialista, esta tradição "tem muitos elementos de sincretismo" entre a doutrina católica e a cosmogonia indígena. Por exemplo, muitos indígenas costumavam quebrar suas panelas de barro a cada 52 anos, para marcar o fim de um ciclo e "romper com o velho", diz Juárez.


