Londrina tem pelo menos quatro sobreviventes do genocídio no Japão, todos vítimas da bomba que caiu em Nagasaki, dia 9 de agosto de 1945. Tano Takahira, 77 anos, e Mitsue Okada, 62, moravam em Nagasaki na ocasião dos ataques e vieram para Londrina após a Segunda Guerra Mundial. A cabeleireira Noriko Ito, 61, e seu irmão, o massagista Uzuhissa Myazaki, 71, moravam na cidade portuária de Sasebo, vizinha a Nagasaki (a pouco mais de 10 quilômetros do local da explosão) e por isso não ficaram com sequelas da bomba. A definição de Uzuhissa, que tinha dez anos na época e viu de longe o ''cogumelo'', dá uma idéia do poder da explosão e do clarão luminoso visto no céu: ''Tive a impressão de que o sol estava explodindo'', conta.
Sua irmã, Noriko, que tinha apenas um ano na época, lembra mais dos efeitos da guerra e do sofrimento e da humilhação enfrentados pela família após a rendição japonesa. ''Meu pai era pastor xintoísta, mas foi obrigado a se alistar e teve que trabalhar como enfermeiro na Marinha japonesa. Depois que acabou a guerra, como ele não tinha uma profissão, precisou trabalhar para o Exército americano, fazendo serviços braçais. Era o único jeito de sustentar a família (mulher e seis filhos). Com a minha mãe foi pior. Passou a lavar a roupa dos soldados americanos em troca de comida'', relembra Noriko.
Como a família conseguiu sobreviver àqueles horrores, o pai de Noriko decidiu nunca mais viver em um país onde houvesse guerra. Dez anos após o fim da guerra, veio com a família para o Brasil, mais precisamente para Londrina, e se instalou na Colônia Lorena, próxima ao patromônio Caramuru, na zona rural.
A professora do Departamento de Geociências da UEL, Yoshia Nakagawara Ferreira, teve parentes que morreram na guerra e alguns que sobreviveram à bomba de Hiroshima, mas hoje moram em outras cidades japonesas e nos Estados Unidos. A família da professora é de Fukuoka, município próximo a Hiroshima, mas sua mãe veio cedo para o Brasil, em 1915, quando transcorria a Primeira Guerra Mundial. Em 1984, Yoshia, que nasceu em Londrina, levou sua mãe ao Japão para que ela pudesse rever os familiares. A professora foi ao País fazer estágio na condição de bolsista da UEL.
Lá visitaram os museus de Hiroshima e Nagasaki, que ainda mantêm fotos e objetos que registram os horrores causados pelas bombas. ''Só de ver aquelas cenas fiquei dois dias sem comer e sem beber. Parecia que tudo me dava repulsa. Demorei muito a me recompor. Me arrepia só de lembrar daqueles corpos deformados e de crianças e adultos com a pele caindo'', relata Yoshia. ''Vi só as consequências da explosão. Não dá nem para imaginar como foi de verdade'', acrescenta. Segundo ela, a palavra em japonês que expressa a explosão atômica é ''guen-shibako''. ''O Japão inteiro ainda sente isso'', afirma a professora.

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