O presidente Vladimir Putin está iniciando uma caça à oligarquia de seu país, com o objetivo principal de recuperar uma parte do dinheiro ganho de forma pouco transparente por numerosos oligarcas até muito pouco tempo atrás próximos do poder.
Mesmo que a meta não seja pôr ninguém na cadeia – pois, ao deixar o poder, o ex-presidente Boris Yeltsin praticamente anistiou seus amigos mais próximos, obrigando Putin a aceitar publicamente esse compromisso –, o atual presidente russo quer reaver uma parte do dinheiro que se evaporou, inclusive a importante parcela de US$ 4,8 bilhões do Fundo Monetário Internacional (FMI), de um crédito total de US$ 11 bilhões. Essa parcela foi liberada em 14 de agosto de 1998 para neutralizar a crise financeira, mas nunca chegou às caixas do Estado russo.
Segundo o jornal italiano ‘‘La Repubblica’’, uma parte desse dinheiro transitou inicialmente pelo National Republic Bank, de Edmond Safra, o banqueiro líbano-brasileiro que foi morto em circunstâncias misteriosas em Mônaco e se sentia ameaçado pela máfia russa, razão pela qual essa pista chegou a ser privilegiada para explicar sua morte, mas sem sucesso. Depois de passar pela Suíça, esses fundos transitaram por Londres e Sydney, antes que a pista se perdesse.
Sabe-se que o dinheiro passou por uma filial do Banco Central russo, o Handelsbank Leste-Oeste. Segundo a mesma fonte, esse percurso suspeito só pode ter sido feito com a autorização de Mikhail Kasyanov, que chegou a ser designado primeiro-ministro por Putin.
Mesmo não havendo provas concretas de desvio ilegal de fundos, existem fortes suspeitas que vão dificultar muito a vida da delegação russa na reunião do G-8 (que reúne os sete países mais ricos do mundo e a Rússia) em Okinawa, no Japão, no fim do mês, quando ela terá de explicar o destino desse dinheiro. Ontem Putin partiu para uma viagem à Ásia, começando por Pequim.
Agora, Putin está procurando multiplicar as demonstrações de que está interessado em coibir os abusos de corrupção em seu país, buscando combater essa oligarquia que se enriqueceu ilicitamente nos últimos anos. A Justiça e a polícia fiscal têm procurado apertar o grupo de ‘‘barões’’ russos que vinham controlando até agora a economia do país, suscitando uma onda de pânico entre certas elites.
Depois da breve detenção do magnata dos meios de comunicação Vladimir Gusinski, opositor do regime, a polícia fiscal está atacando os diversos feudos. Um inquérito foi aberto contra a companhia de petróleo Lukoil, suspeita de desvio de fundos. A Procuradoria de Justiça está cobrando US$ 140 milhões da holding Interros, por ter adquirido a preço subestimado a empresa Norilsk Nickel. O grupo automobilístico Avtovaz está sendo acusado de ter vendido 200 mil veículos no mercado negro, sonegando US$ 840 milhões em impostos ao Estado, segundo o diário ‘‘Nezavisimaya Gazeta’’.
Até mesmo o ultraliberal Anatoli Chubais, diretor do monopólio de eletricidade RAO-UES, está sendo acusado de ter violado a lei cedendo mais de 25% do capital dessa empresa. Os jornais assinalaram que o todo-poderoso Boris Berezovsky propôs devolver sua participação de 49% na emissora de televisão ORT, controlada pelo Estado, para evitar problemas com o Judiciário. Mas isso não deverá impedir que, mais dia, menos dia, ele venha a ser também uma das ‘‘vítimas’’ dessa caça à oligarquia russa, mesmo tendo sido uma das figuras centrais da chamada ‘‘família’’ anterior.

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