Putin dá entrevista como o novo czar
Agência Estado
De Moscou
Era 1 hora da manhã em Moscou quando Vladimir Putin, descontraído e de suéter, irrompeu em cadeia nacional durante meia hora face a uma brigada de jornalistas russos. Nunca se viu nada igual na era Yeltsin, e muito menos sob a URSS. O resultado parcial da eleição para escolher o sucessor de Boris Yeltsin até às 21 horas de ontem atribuía a ele 50,67% dos votos contra 30,51% do líder comunista Gennady Zyuganov. Haviam sido apurados 59%.
Em sua primeira entrevista coletiva a sangue frio desde o início do ano, Putin comportou-se como um profissional de mídia, não de segredos. Estava relaxado porque passou a tarde na sauna, em sua dacha no campo, e teve tempo de descansar. Disse que considerava a mesma coisa uma vitória no primeiro ou no segundo turno. Dirimiu a alta e surpreendente votação do comunista Guennadi Zyuganov como apenas um voto de protesto. Pensou vários segundos antes de afirmar que dele a Rússia não poderia esperar milagres apenas trabalho duro.
Pródigo em generalidades e projetando sem muito esforço a imagem de um líder jovem, enérgico e honesto, Putin não falou de nada específico de seu programa de governo. Defendeu a intervenção na Chechênia como a única maneira de unificar a sociedade russa. Declarou-se disposto a conversar com Zyuganov e o liberal Grigori Yavlinski e a ouvir suas sugestões - contanto que não sejam partidárias.
Acabou a coletiva menos de meia hora depois: Às 10 da manhã temos de trabalhar, há um governo a ser tocado. Às 2 horas da manhã em Moscou, Putin havia passado o selo de 50%, de acordo com a agência Itar-Tass: estava a ponto de tornar-se o novo czar da Rússia.
Poucas horas antes, os russos tinham experimentado a impressão de que teriam de esperar até o dia 16 para saber o que realmente significa a ditadura da lei de Putin. Apenas 54% dos 108 milhões de eleitores registrados atenderam ao apelo televisivo do delfim de Boris Yeltsin e presidente em exercício para cumprir seu dever constitucional na eleição presidencial de ontem.
Putin teria todas as condições para vencer no segundo turno, mas, nesse caso, não teria o mandato límpido que deseja: seria obrigado a concluir tortuosos acordos, por exemplo, com governadores regionais quando o próprio Putin já pensava em reduzir sua influência.
A questão principal permanece: qual será a estratégia do exímio carateca e ex-agente da KGB Putin para transformar o status desse país rico de gente pobre imagem que o candidato Putin e seu comitê eleitoral tomaram do cineasta Nikita Mikhalkov. A sagração de Putin deve marcar o advento de uma nova geração no poder, que estudou sob Brejnev, começou sua carreira nos últimos anos do socialismo sob Gorbachev e se consolidou nos loucos anos Yeltsin. Esta geração considera intolerável o declínio social, demográfico, político e econômico da Rússia, e está determinada a reverter o processo.
Politólogos vão passar anos decifrando os méritos de como Putin chegou a ponto de ser eleito no vácuo de uma não-campanha como reconhece a própria vice-diretora de seu comitê eleitoral, Ksenia Ponomaryova: A estratégia por trás da campanha era de que não havia campanha. Já na redação do diário Izvestia, hoje, imperava o cinismo: para seus redatores, houve campanha, mas em puro estilo Brejnev, apoiada nas soberanas fontes de informação controladas pelos Kremlin, os canais estatais ORT e RTR.
Ontem de madrugada a Rússia adiantou os relógios para o horário de verão. Foi uma votação calma nas 90 mil sedes eleitorais espalhadas por 11 fusos horários. Mais de 50% votaram no norte e praticamente ninguém no sul, onde está a resistência dos guerilheiros chechênios. Em Moscou, a polícia municipal examinava documentos de qualquer pedestre com aparência do Cáucaso.
Uma pesquisa informal realizada ontem de manhã, após os dramáticos cantos litúrgicos da Igreja Ortodoxa, confirmava que intelectuais urbanos e estudantes na maioria absoluta votaram no liberal Grigori Yavlinski, ou em nenhum dos anteriores. O problema dele é uma linguagem incompreensível para a imensa nebulosa que ainda rumina sua nostalgia soviética como nas remotas províncias árticas e orientais.
O que preocupa os eleitores russos é acima de tudo a economia e não o massacre da Chechênia. Poucos à parte intelectuais urbanos também se importaram com o passado de Putin na KGB: os russos reconhecem que a KGB recrutou as figuras mais inteligentes, competentes e cosmopolitas de sua geração.
Putin vai herdar uma fenomenal concentração de poder originária da Constituição de 1993 ditada sob medida por Yeltsin. Putin como Yeltsin será imune a processos e poderá praticamente governar por decreto. Pode nomear e demitir o primeiro-ministro, convocar eleições parlamentares, formar e dirigir o Conselho de Segurança (que aprova operações militares), decretar lei marcial e apontar ou demitir o comandante das Forças Armadas.





