Em uma extraordinária demonstração de humildade após as duras críticas do público em geral, o presidente russo Vladimir Putin disse ontem sentir-se responsável e culpado pelo desastre com um submarino que causou a morte de 118 marinheiros e revoltou a nação.
O ministro russo de Defesa, Igor Sergeyev, e o chefe da Marinha, almirante Vladimir Kuroyedov apresentaram suas renúncias devido ao acidente envolvendo o Kursk, um dos mais modernos submarinos da frota da Rússia antes da explosão que teria causado seu naufrágio – em 12 de agosto.
Mas Putin disse que rejeitaria os pedidos de renúncia. Procurar bodes expiatórios, disse ele, ‘‘seria a resposta mais equivocada’’.
‘‘Eu assumo toda a responsabilidade e toda a culpa por esta tragédia’’, disse o presidente em entrevista à rede de televisão russa RTR.
Em um país no qual o passado autoritário ainda deixa suas marcas, os comentários de Putin demonstraram sua sensibilidade com relação à opinião pública e sua ânsia por reconquistar a confiança sem precedentes da nação para com um líder russo.
Muitos observadores esperavam que Putin responderia com a demissão de autoridades do alto escalão – como fazia às vezes seu antecessor, Boris Yeltsin.
A entrevista com Putin foi transmitida quando a Rússia respeitava luto de um dia pelas vítimas da tragédia e depois de ele se reunir por três horas com familiares dos marinheiros no fim da noite de anteontem na base onde ficava estacionado o Kursk, em Vidyayevo.
‘‘As conversas foram muito sinceras. Ele admitiu sua culpa e sua inércia e disse que o principal motivo foi a falta de dinheiro’’, comentou Oksana Dudko, cujo marido Sergei era subcomandante do Kursk.
Falando sóbria e firmemente, Putin defendeu seu silêncio inicial e a demorada resposta às ofertas de ajuda internacional dizendo que a Marinha agiu da forma mais rápida possível, possuindo poucas informações sobre as condições do submersível.
Ele também prometeu recuperar a honra de seu Exército enfraquecido e do país. ‘‘Isso me faz sofrer, a teoria de que a honra da Marinha e a honra da Rússia afundaram junto com o Kursk’’, declarou. ‘‘Nosso país sobreviveu a muitas adversidades. Nós superaremos isso e recuperaremos tudo - o Exército, a Marinha e o Estado.’’
O país inteiro baixou as bandeiras a meio pau e rezou nas catedrais ortodoxas. A televisão interrompeu parte de sua programação e o mais popular site russo da Internet anekdot.ru, mostrou uma tela negra vazia durante todo o dia.
Os parentes das vítimas recusaram-se a aderir ao luto, exigindo que os corpos de seus filhos e maridos sejam antes retirados do fundo do mar. Putin prometeu que os corpos seriam recuperados. De acordo com o presidente russo, mergulhadores fariam um buraco no submarino ou o trariam a uma região mais rasa. Ainda segundo Putin, isso já estaria sendo negociado com mergulhadores noruegueses e holandeses.
Mas Mikhail Kuznetsov, comandante do complexo militar de Vidyayevo, disse que os trabalhos não poderiam ser iniciados até o degelo da próxima primavera no hemisfério norte.
O Kremlin prometeu compensar as famílias, que dependiam dos miseráveis soldos dos marinheiros para sua subsistência. O governo federal prometeu pagar, em parcela única, uma média de US$ 7.000 por família – quantia equivalente a 10 anos de salário para um oficial de submarino –, disse a vice-primeira-ministra Valentina Matviyenko.

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