Protestos na Europa mobilizam londrinenses contra corrupção e crise habitacional
Na Albânia, estudantes assumiram a 'Revolução dos Flamingos' contra o governo, e em Portugal, atos denunciam o alto custo da moradia
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sábado, 31 de outubro de 2026
Na Albânia, estudantes assumiram a 'Revolução dos Flamingos' contra o governo, e em Portugal, atos denunciam o alto custo da moradia

Uma onda de manifestações populares tem pressionado governos europeus e exposto a insatisfação de parcelas da população com as condições econômicas, sociais e políticas do continente. Com mobilizações registradas em ao menos 12 países de forma mais intensa desde meados de setembro, os protestos ganharam força ao longo das últimas semanas, reunindo reivindicações que vão da crise habitacional e do custo de vida à corrupção, à educação e à falta de perspectivas para os jovens.
A FOLHA ouviu londrinenses que moram em alguns desses países e que ajudam a explicar o fenômeno que vem atraindo a atenções em todo o mundo. Os entrevistados apoiam as reivindicações.
A Albânia, país no sudeste europeu situado na Península Balcânica e de tamanho equivalente ao estado de Alagoas, é palco de manifestações lideradas por estudantes insatisfeitos há duas semanas. Os jovens protestam contra a corrupção no governo, a baixa qualidade da educação, o alto custo de vida, a falta de empregos e os serviços públicos precários.
Em Portugal, milhares acampam em locais públicos mobilizados contra a crise na moradia, acusando o governo de querer facilitar o despejo de inquilinos com uma reforma no mercado de locação.
Os albaneses também exigem a renúncia do primeiro-ministro socialista Edi Rama, que já anunciou que não vai abdicar do cargo que ocupa desde 2013. A mobilização é marcada por confrontos diários entre militantes e a polícia, com estudantes assumindo o protagonismo do movimento no dia 13 deste mês.
O movimento começou no fim de maio motivado por preocupações ambientais, com manifestações pacíficas contra um projeto turístico de luxo aprovado pelo governo em Zvernec, uma área costeira protegida no sul da Albânia que abriga flamingos. Por conta da presença das aves, o movimento de protesto cívico ganhou o nome de "Revolução dos Flamingos", se tornando o maior visto no país desde a queda do comunismo em 1991.
A indignação se tornou ainda maior com o envolvimento da família de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. Seu genro, Jared Kushner - esposo de Ivanka Trump, filha do chefe do Executivo -, planeja construir um hotel na reserva natural. Os munícipes acusam o governo de corrupção e falta de transparência.
‘Policiais agiram primeiro’
Ana Claudia Pablos, 29, e Maltos Becker, 26, se mudaram em agosto para Burrel, cidade no norte da Albânia a uma hora da capital Tirana. Antes disso, viviam na República da Lituânia, localizada no nordeste da Europa. A mudança do Brasil para os dois países foi motivada pelo emprego de Becker, que, no momento, atua como goleiro no time de futebol KF Burreli.

O casal participou de atos de cunho ambiental, antes da ampliação com as reivindicações estudantis. “Tudo começou pela corrupção do atual governo, que está como se fosse uma ditadura, porque estão no comando já faz 13 anos. O país saiu da ditadura comunista em 1990, e os Estados Unidos foram o principal financiador para que saísse do comunismo. Eles são bem gratos, então em qualquer lugar que você vai, você encontra a bandeira dos Estados Unidos ao lado da bandeira da Albânia. Eles basicamente mandam aqui”, contou Pablos.
Quando ainda moravam em Tirana, presenciaram atos pacíficos diariamente, inclusive com apoio das forças de segurança abrindo passagem aos manifestantes. “Não tinha visto nenhum incêndio, depredação e nada violento. Quando os estudantes aderiram à manifestação por conta de verba, os policiais começaram a utilizar da violência, e causou revolta total. Agora, não tem um poste levantado em Tirana”, disse a autônoma em marketing.
Sanção a quem for violento
Com a recusa pela renúncia demandada pelos insurgentes, o premiê albanês reiterou repetidas vezes a acusação de que os protestos são objeto de interferência estrangeira. Tais forças - que ele não identificou - teriam se infiltrado para frear o progresso do país e bloquear o processo de negociação para adesão à União Europeia em 2027.
Rama anunciou, neste domingo (25), a promulgação de uma lei que permitirá impor multas superiores a 550 dólares a "qualquer pessoa que decida permanecer em uma multidão" na qual ocorram atos de violência ou saques em espaços públicos, ou a pessoas que "ocultem sua identidade" nestes locais. Afirmou ainda que as medidas restritivas serão aplicadas a qualquer tipo de concentração em que haja danos materiais.
Conforme o dirigente do Partido Socialista, a legislação também concederia poderes à polícia para restringir "concentrações" em casos nos quais se considere haver risco de violência. O discurso foi dado após mais um dia de protestos e confrontos no sábado (24), que resultou na prisão de 23 munícipes, com mais 13 alvos de processos judiciais e 30 pessoas "procuradas".
O presidente do Partido Democrático e líder da oposição, o conservador Sali Berisha, afirmou que a população não aceitará a determinação. “Responderemos olho por olho" a Rama, "para lhe dar o que merece", completou. Em manifestações recentes, participantes atearam fogo ao prédio do Ministério da Educação, na capital Tirana, com policiais respondendo com gás lacrimogêneo e canhões d’água.
A londrinense pontuou que os atos adquirem maior adesão a cada dia que passa, com todo o seu círculo social indo às ruas. “Mesmo com a violência, tem grávida, idoso, criança, sem tem tempo ruim. É muito legítimo e eles têm que lutar, e eu acho que é válida a violência que está sendo utilizada agora, porque a polícia vem com violência, então, não tem outra saída”.
Histórico da ditadura
Ana Pablos acredita que os brasileiros poderiam se espelhar no comportamento dos europeus, mais confrontativos e revolucionários ao apelarem quando suas reivindicações não são atendidas. “No Brasil, a gente adota um estilo mais pacífico pela nossa história da ditadura. Sabemos como os militares agem, não é só na água, na bala de borracha e gás lacrimogêneo, é bem mais embaixo, com tortura. E também porque o país é muito grande e completamente polarizado. Teria que ser uma revolução muito grande mesmo, com muito mais adeptos para poder mudar alguma coisa”.
Crise imobiliária em Portugal
A onda de protestos vem ecoando em mais países do continente, com a mesma sensação de “a união faz a força”. Nas últimas semanas, multidões vêm se concentrando em múltiplas cidades de Portugal, França, Itália, Espanha, Grécia e Bélgica, expressando insatisfações econômicas e sociais. O sentimento é compartilhado por Livia Guimarães, londrinense de 22 anos que se mudou para Portugal em 2022 para estudar. Ela finalizou a licenciatura e agora é mestranda em psicologia na Universidade de Coimbra.

A causa das manifestações no país é o agravamento da crise habitacional que perdura há anos, contra o aumento do custo de vida em Portugal. Quem protesta afirma que ter uma casa para morar se tornou um privilégio, com proteção cada vez maior aos proprietários e menor aos inquilinos.
Os preços da habitação subiram 124% entre 2015 e 2024, o dobro do aumento europeu. O impacto é ainda mais severo entre os jovens e a população de Lisboa, que concentra um quarto dos mais de 11 milhões de habitantes do país. No mês passado, o Parlamento aprovou em primeiro turno uma reforma para acelerar os despejos de locatários em caso de inadimplência.
“Desde que eu cheguei, vi um crescimento absurdo nos preços e falta de proteção para nós que estamos alugando. As leis de despejo são muito falhas e também já está havendo discussões sobre o aumento das propinas das universidades. O governo está falhando com o povo e chegou a um ponto que não aguentamos mais”, contou Guimarães. O primeiro-ministro, Luís Montenegro, atribui a responsabilidade pela crise estrutural aos governos anteriores.
Tendas em locais públicos
Portugueses uniram barracas e montaram acampamentos em Porto, iniciando um movimento no dia 10 de outubro que se espalhou para outras cidades. A londrinense contou que os manifestantes empunham cartazes com o escrito "O primeiro desenho que fazemos na vida é de uma casa." Na capital, se concentram na Praça Rossio - coração turístico - e cantam “Lisboa não está à venda”, ao som de tambores.
A polícia portuguesa vem desmantelando as “acampadas”, consideradas ilegais pelo governo. Em Lisboa e Porto no domingo (25), uma operação resultou em 31 prisões por desobediência, 171 estruturas retiradas e 11 feridos, sendo oito civis e três policiais, segundo a força de segurança. Já os organizadores do movimento relataram 37 feridos após a intervenção, em particular em Lisboa.

Guimarães recordou de uma ação policial “exagerada” ocorrida em Porto. “Eles desmontaram as tendas às cinco horas da manhã, quando tinha pessoas dormindo, agredindo quem estavam sentado. Foram quase 40 pessoas feridas, uma agressividade desproporcional ao que estava acontecendo”, lamentou.
Se referindo ao protagonismo francês nos protestos que permeiam a Europa há semanas, disse que se sentiu tocada ao ler um cartaz escrito: “nós não somos agressivos por irmos em lojas, se nós fôssemos agressivos, miraríamos na cabeça, igual vocês fazem”. Completou dizendo que “quando vem a revolução, não tem como parar”. (Com France Presse)


Heloísa Gonçalves
Jornalista


