Protestos ameaçam os regimes árabes
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de março de 2003
Michel Sailhan<BR>France Presse 
Cairo Os regimes árabes acompanham com inquietação os protestos populares contra os Estados Unidos, observando com atenção as consequências econômicas e sociais da guerra no Iraque, que podem colocar fim à sua estabilidade.
Desde que as tropas anglo-norte-americanas entraram no Iraque, no dia 20, as manifestações são diárias, do Sudão a Bahrein e da Jordânia ao Líbano.
Expressando seu ódio aos Estados Unidos, a seu ''serviçal'' britânico e a Israel, os manifestantes tiraram dos baús os lemas nasseristas e antiimperialistas dos anos 60, denunciando a ilegalidade do conflito lançado pelo ''criminoso de guerra'' George W. Bush e os projetos ''colonialistas'' em relação aos países árabes e suas riquezas petroleiras.
''A humilhação árabe, principalmente centrada em Israel e no problema palestino, vai se alimentar de sangue'' das vítimas iraquianas, avaliou um diplomata no Cairo.
Os lemas se transformam regularmente em críticas abertas contra os atuais regimes, acusados de colaborar com os Estados Unidos apesar das furiosas condenações à ofensiva contra o Iraque nas reuniões da Liga Árabe.
''Vingança, venderam Ruesheid por um dólar'' gritavam os manifestantes na terça-feira em Amã, acusando o rei Abdullah II de receber nesta região de fronteira com o Iraque tropas norte-americanas com cerca de seis mil militares, segundo diplomatas.
''Gamal (filho do presidente egípcio Hosni Mubarak), diz ao teu pai que os estudantes o odeiam'', gritavam manifestantes no Cairo na semana passada. Consciente da ameaça que vem das ruas, Mubarak se inquieta com a prolongação da guerra.
''É importante que sejamos estáveis, sólidos, e que o país não seja afetado negativamente pela guerra'', declarou terça-feira o ministro das Relações Exteriores jordaniano, Marwan Moasher.
Ainda antes da guerra começar, as companhias aéreas cancelaram vários vôos para a região, acertando em cheio os negócios e o turismo. No Egito, a moeda sofreu desvalorização de 20% desde o começo do ano, o setor hoteleiro registrou um índice de ocupação de 30% contra os 80% do mesmo período do ano anterior. O turismo é o principal recurso de divisas do Egito.
''Não se pode descartar a possibilidade de que aconteçam revoltas por pão, manifestações que degenerem em atentados'', disse um jornalista egípcio que pediu anonimato. ''Há duas categorias sociais muito impacientes para que desapareça o regime atual: os muito pobres e os muito ricos'', comentou.
Na terça-feira, os Estados Unidos publicaram uma lista de países que devem ser recompensados pelo apoio que lhe deram no caso iraquiano.


