Associated Press
Mais de 3 mil policiais e soldados britânicos formaram ontem uma sólida linha de defesa para impedir que a Ordem de Orange (protestante) atravessasse o setor católico de Portadown, sudoeste de Belfast, Irlanda do Norte. O desfile anual da Ordem de Orange através dessa cidade norte-irlandesa provocou distúrbios pela primeira vez em 1995 quando os residentes católicos da Rua Garvaghy tentaram impedi-la. Desde então, a disputa provoca uma crise no país todos os anos.
Os cerca de 15 mil protestantes norte-irlandeses, que se reuniram para o tradicional desfile, manifestaram o temor de terem sido traídos por seu primeiro-ministro, sua polícia e seu Exército. O cortejo dos membros da Ordem de Orange marchou pacificamente até a igreja de Drumcree, onde chegou ao meio-dia e onde o mestre da loja orangista, Harold Gracey, apelou aos participantes que respeitassem a proibição de desfilar pela Rua Garvaghy.
‘‘Sentimo-nos traídos por Tony Blair (o primeiro-ministro britânico)’, disse James Totton, de Holywood. ‘‘As forças do Estado estão ajudando a defender os que querem destruir o Estado’’, afirmou um partidário do Ulster britânico referindo-se aos católicos nacionalistas que desejam que a província torne-se irlandesa.
Durante a noite, sob faróis dos helicópteros militares, um pequeno grupo de protestantes jogou pedras e pequenas bombas de efeito moral contra a barricada de arame farpado, policiais e soldados, mas não houve informação sobre feridos.
Os protestantes também queimaram alguns veículos no norte de Belfast e os católicos incendiaram um salão da Ordem de Orange na aldeia de Warrenpoint e uma igreja presbiteriana livre na vizinha República da Irlanda. Os presbiterianos livres são membros de uma seita fundada por Ian Pasley, o mais radical político protestante.
A Ordem de Orange, fundada em 1795 para comemorar as vitórias protestantes contra as forças católicas no século anterior, teve um papel crucial na fundação da Irlanda do Norte como Estado com maioria protestante em 1920.
No sábado à noite, diante da pequena igreja de Drumcree, o documento que prevê uma divisão de poder com os católicos e um desarmamento do Exército Republicano Irlandês (IRA), proposto na sexta-feira pelos primeiros-ministros britânico, Tony Blair, e irlandês, Bertie Ahern, foi rasgado durante uma manifestação de 5 mil pessoas.
Blair e Ahern exortaram ontem os protestantes da Irlanda do Norte a dar uma oportunidade ao plano de paz para essa conflitiva província britânica. O rechaço do protestante Partido Unionista do Ulster (UUP) e de seu líder, David Trimble, ao plano de sexta-feira daria uma vitória propagandística aos republicanos católicos do Sinn Fein, braço político do IRA, disse Blair. Em declarações publicadas ontem pelo Sunday Times, o primeiro-ministro britânico advertiu aos unionistas que deverão assumir toda a culpa internacional se até o fim do mês não houver um acordo que leve à formação de um Executivo misto em Belfast.
O UUP exige que o IRA comece seu desarmamento antes que seu partido político passe a tomar parte do novo governo regional norte-irlandês, onde pela primeira vez estarão representados tanto protestantes como católicos.

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