A polícia israelense confirmou ontem ter recomendado à justiça o início de um processo judicial contra o primeiro-ministro Benjamín Netanyahu, abrindo uma nova crise política em Israel. O ministro da Segurança Interior, Avigdor Kahalani, responsável da polícia, confirmou à rádio pública que seus serviços propuseram ao promotor-geral processar Netanyahu por ‘‘abuso de confiança e corrupção’’.
Kahalani também confirmou que seus serviços vão processar o ministro da Justiça Tzahi Hanegbi, o diretor-geral da presidência do Conselho Avigdor Lieberman e um influente parlamentar da coalizão no poder, Arie Deri.
Caberá agora à promotora-geral do Estado, Edna Arbel, tomar a decisão final sobre o indiciamento do chefe do governo e de seus assessores. Seja qual for a decisão dela, prometida para segunda-feira, a imprensa israelense acredita que o governo de Netanyahu já sofreu um golpe muito sério, capaz de tornar inviável a permanência do Likud e de seu líder no poder.
Segundo os meios de imprensa israelenses, que tiveram acesso a partes da investigação policial (um volume de quase mil páginas), Netanyahu ‘‘fez algumas coisas estranhas’’ em relação à barganha com o Shas, o que desmentiria a tese de que ele não sabia o que estavam tramando seus assessores diretos. Segundo a acusação, os assessores de Netanyahu procuraram favorecer por baixo do pano o líder do Shas, para livrá-lo de um processo, em troca do apoio do pequeno partido à retirada das tropas israelenses de Hebron.
Vários aliados do Likud na coalizão já disseram que poderão sair dela e deixar Netanyahu sem sua maioria no Parlamento (Knesset), que é de 66 cadeiras num total de 120. Analistas em Israel disseram ontem que o próprio Shas poderá deixar a coalizão se seu líder for indiciado, o que acabaria por deixar o Likud em minoria e incapaz de governar. Segundo os analistas, a única saída para o Likud seria convocar novas eleições.
Em entrevista à televisão israelense, o líder do Partido Trabalhista, Shimon Peres, disse que o caso poderá se transformar num ‘‘terremoto político’’. Especula-se que um possível governo de coalizão com os trabalhistas, para tentar salvar o processo de paz com os palestinos, poderá também estar ameaçado, uma vez que os oposicionistas não aceitariam participar de um governo acusado de fraude política.
‘‘As informações divulgadas até agora mostram que muita gente está com as mãos sujas’’, afirma em editorial o jornal israelense Yediot Ahronot. ‘‘Se a sujeira é criminosa ou política caberá à promotoria do Estado decidir.’’
Segundo a rádio israelense, o ministro Kahalani confirmou que a polícia ‘‘recomendou indiciar o primeiro-ministro’’ no caso envolvendo a barganha secreta com o Shas. O advogado de Netanyahu, Yacov Weinroth, afirmou que a recomendação da polícia para que o primeiro-ministro seja indiciado ‘‘carece de base’’.

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