Prolongamento da guerra é novo teste de resistência para os exportadores de frango
A interrupção do tráfego no local é uma retaliação do governo iraniano contra os ataques militares dos Estados Unidos e Israel e perdura por quatro semanas
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de março de 2026
A interrupção do tráfego no local é uma retaliação do governo iraniano contra os ataques militares dos Estados Unidos e Israel e perdura por quatro semanas
Lúcio Flávio Moura - Especial para a FOLHA 

Um dos setores mais robustos do agronegócio paranaense, a cadeia do frango de corte enfrenta o terceiro ano consecutivo com episódios que ameaçam sua trajetória de expansão no mercado externo. Depois de dois episódios sanitários de grande repercussão - os casos de Doença de Newcastle em julho de 2024 e o de Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (IAPP) em maio de 2025 - o ritmo intenso nas entregas em portos do Oriente Médio está ameaçado pelo prolongamento do bloqueio naval no Estreito de Ormuz, canal hidroviário que liga os golfos Pérsico e Omã.
A interrupção do tráfego no local é uma retaliação do governo iraniano contra os ataques militares dos Estados Unidos e Israel e perdura por quatro semanas, desorganizando o fluxo do comércio internacional.
O caso afeta diretamente os frigoríficos paranaenses que exportam carne de frango para o Oriente Médio. Em 2025, o maior comprador foram justamente os Emirados Árabes Unidos, cujos portos ficam logo além do bloqueio iraniano. As vendas para o país, menos conhecido do que sua cidade mais famosa, Dubai, tiveram um volume de mais de 200 mil toneladas, com receitas de quase US$ 365 milhões para a indústria paranaense. A Árabia Saudita, o Iraque e o Kuwait cujas costas também ficam além do bloqueio, injetaram mais US$ 475 milhões no estado no ano passado com a compra do produto.
Mísseis, minas, torpedos e drones atingiram em cheio o bom humor do mercado. O primeiro bimestre parecia ser o aperitivo de um ano fadado aos recordes. De acordo com a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), as exportações do país foram recorde para o mês de fevereiro, com quase US$1 bilhão, alta de 8,6% em relação ao ano passado, um claro sinal que o mercado já havia esquecido o episódio sanitário de maio.
As compras dos Emirados Árabes seguiam a todo vapor, com aumento de 13,4%. O viés de alta também foi registrado no mercado saudita (7,3%). No levantamento por Estado, o Paraná seguia firme na liderança, com 211 mil toneladas exportadas, alta de 13,3% em comparação com fevereiro de 2025.
Os volumes de março ainda são uma incógnita e devem dar a dimensão real do impacto da guerra na saúde econômica da avicultura, um setor responsável por 100 mil empregos diretos no Paraná.
A reportagem da FOLHA tentou contato com empresas e sindicatos patronais, mas esbarrou no silêncio apreensivo de quem assiste o noticiário sem o poder de influenciar as decisões dos líderes que manejam os joysticks do conflito.
“É possível dizer neste momento apenas que os embarques no Porto de Paranaguá continuam em ritmo normal, no entanto com frete mais caro e com viagens mais longas”, informa Fábio Peixoto Mezzadri, do Departamento Técnico e Econômico do Sistema Faep.
Ele também confirma o que outros operadores disseram à reportagem em anonimato. As granjas estão operando normalmente e os abatedouros seguem sua rotina como se guerra não houvesse. “É importante dizer que estes mercados compradores também dependem muito do fornecimento do frango paranaense, o que tranquiliza um pouco o mercado”. As estimativas apontam que três terços do frango consumidos nos Emirados Unidos vem do Brasil. No mercado saudita, a participação é de 50%. Por esta razão, os especialistas acreditam que o custo maior da logística deve ser absorvido pelos compradores, mesmo se a alta do diesel for acentuada e se as apólices das cargas seguradas continuarem subindo.
O frango exportado para o mundo árabe é chamado de halal, abatido de acordo com rigorosos requisitos e preceitos religiosos da comunidade muçulmana, supervisionado por um fiscal islâmico dentro dos frigoríficos. É normalmente embalado inteiro, com a cabeça, de preferência mais jovens, com galetos de menos de um quilo, com carne mais macia. O Brasil é líder mundial neste tipo de produção.
Com o bloqueio do Estreito de Ormuz, restaram rotas alternativas. Para chegar à Arabia Saudita e à Jordânia, os navios estão desviando para o Golfo de Aden, na África. As embarcações atravessam o estreito de Bab al-Mandab, entre o Iêmen e o Djibout, chegam ao Mar Vermelho e atracam na costa leste saudita. Para chegar a Dubai, são duas alternativas. A atracação está sendo feita no Sultanato de Omã, no porto de Salalah, ao sul daquele país, com a carga seguindo por 1.200 quilômetros até a metrópole emiradense. Há também o uso em menor escala em um porto no emirado de Xarja, numa localidade chamada Corfação, próximo da área de conflito mas antes do estreito, na costa do Golfo de Omã.
Em uma rara declaração ao mercado, o presidente da ABPA, Ricardo Santin, afirmou esta semana à Agência Reuters que o setor está conseguindo “driblar” o bloqueio com estas rotas e que a média diária em março está indicando que os embarques podem até superar os volumes do mesmo mês do ano passado.


