Projeto venezuelano usa ex-delinquentes contra a violência
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segunda-feira, 22 de julho de 2013
BBC Brasil 
Fernando Núñez não tinha completado t13 anos quando pegou uma arma pela primeira vez e decidiu roubar. Ele, como outros que vivem protegidos pelos labirintos das favelas, é fruto do abandono de uma família disfuncional.
Ele conta que a necessidade de ajudar seus pais, e o desejo por coisas que não poderia ter, como um par de sapatos novos, o levaram à vida do crime.
Mas Fernando está arrependido e diz que mudou. Ele é um dos membros fundadores do "El hampa quiere cambiar" ("Os criminais querem mudar" em tradução livre), um grupo de ex-delinquentes juvenis que, com a ajuda de ativistas políticos que apoiam o governo, decidiram acabar com seu estilo de vida violento.
Junto com outros ex-delinquentes, Fernando trabalha com a fundação nos bairros da capital venezuelana, Caracas, para convencer jovens a deixar a vida do crime e se reintegrar à sociedade.
Terceira cidade mais perigosa do mundo
Os inúmeros "ranchos" (como são chamadas as habitações precárias na Venezuela) se aglomeram pela periferia de Caracas e formam um imenso labirinto de escadas, o local perfeito para a proliferação do crime.
Petare, a maior favela de Caracas, com 40 quilômetros quadrados, é um dos locais mais perigosos da capital venezuelana. Segundo o Observatório Venezuelano da Violência (OVV), em 2012 foram registrados 122 homicídios por 100 mil habitantes na capital.
De acordo com a ONG mexicana 'Seguridad, Justicia y Paz', com esse registro, a metrópole venezuelana é a terceira mais perigosa do mundo, perdendo apenas para San Pedro Sula, em Honduras (169 homicídios por 100 mil habitantes) e Acapulco, no México (143 homicídios por 100 mil habitantes).
O governo de Maduro, afetado por esta insegurança, decidiu colocar o exército à frente do "Plano de Segurança Interna", a vigésima primeira grande operação lançada nos anos de Chávez.
Ao patrulhar áreas como Petare, os soldados, especialmente à noite, encontram com os delinquentes organizados em pequenos bandos. A maioria dos jovens como Fernando aproveita-se da impunidade proporcionada pelas escadas escuras das favelas, para andar livremente sem serem pegos.
"Morte, prisão ou cadeira de rodas"
Para fazer isso, Manuel Joan, um desses "delinquentes arrependidos", usa a própria experiência: "Você sabe quem está roubando e quem está a toa disposto a quebrar a lei, porque você já viveu essa vida."
"O crime só pode te levar a três lugares: à prisão, à morte ou te deixar confinado à cadeira de rodas" é o argumento usado por Manuel para convencer os jovens.
Assim, ao lado de seus companheiros, Manuel trabalha na conscientização de jovens. Através da fundação ele oferece "educação, esportes e trabalho."
A ação de Manuel é feita favela a dentro, pelas escadas e labirintos que tanto conhece, e onde a polícia não entra, porque se entrar o resultado é tiroteio.
Além de seu trabalho de conscientização e recrutamento, "El hampa quiere cambiar" faz intermediações entre grupos rivais.
"Você já sabe quem são os líderes. Queremos trazer a paz. Caso haja derramamento de sangue, seja por uma moto ou qualquer outra coisa, trabalhamos para apaziguar", explica Manuel.
O grupo desenvolve também um projeto de carpintaria e um oficina mecânica, para que os jovens, depois de deixar o crime, aprendam uma profissão.
"Nós também queremos ajudar os presos. Muitos pagaram pelo seu crime e não conseguem sair", acrescenta Manuel.


