Prisão, tortura e morte no Estádio Nacional do Chile
ReproduçãoTempos FelizesMaria das Dores com o marido em 1965 num restaurante em São PauloMaria das Dores Romaniolo não acompanhou os últimos dias do marido e não chegou a vê-lo morto. O atestado de óbito emitido pela Cruz Vermelha chilena acusa peritonite aguda no intestino (inflamação). Vinte e cinco anos se passaram, mas a viúva se recorda com detalhes da última notícia que teve de Wânio, que tinha 47 anos: um embrulho que lhe foi entregue através de um oficial no estádio Nacional do Chile, onde estavam presos. Ela recebeu um pacote com o relógio, os óculos e a aliança de casamento. Reagiu com indignação, pedindo que os objetos fossem devolvidos. Ele pode estar precisando, relatou Maria das Dores, ao oficial. Ele não precisa mais disso, respondeu.
O desespero que se seguiu durou 24 horas. Maria das Dores foi levada para um hospital de lona. Estava um calor de 40 graus e eles me fizeram deitar numa maca, com cinco cobertores em cima. Ligaram uma música em alto volume que até hoje me faz um mal. Colocaram uma carabina na minha cabeça e ameaçaram: se chorar, morre.
Ela disse que além das torturas físicas sofridas no Estádio Nacional do Chile, militares brasileiros que foram para o país vizinho interrogar os exilados tentaram matá-la. Mas aprendi gritar com as argentinas. A gente gritava tanto que deixava os militares doidos, relata.
Maria das Dores também sofreu tortura mental. Conseguiram achar um chapéu igual ao que meu pai usava aqui no Brasil. Eles me jogavam o chapéu e perguntavam: conhece esse chapéu? O velho tá aí e tá sofrendo, hein?.
No período em que esteve presa, ela também foi privada da companhia da filha Roberta. No dia da detenção - 13 de setembro de 1973 - Maria das Dores, Wânio e Roberta primeiro foram levados a uma delegacia e só depois transferidos para o Estádio Nacional. Na primeira noite, separada do marido, um oficial chileno invadiu a cela e tirou sua menina. Gritando, desesperada, ela conseguiu trazer a filha de volta, mas garantiu que a garota fosse levada para Ester, sua vizinha. Roberta permaneceu com a vizinha durante vários meses, até que Maria das Dores fosse liberada. Devo a vida da minha filha a ela e um dia vou voltar ao Chile para agradecê-la. Maria das Dores também pretende voltar à França, onde ficou exilada até retornar ao Brasil, depois de decretada a anistia. (P.Z)





