São Paulo - O presidente do Timor Leste, Xanana Gusmão, declarou ontem estado de emergência nacional no país e assumiu poderes especiais que lhe concedem o controle sobre o Exército e a polícia. Segundo Gusmão, a medida adotada após dois dias de sessões do Conselho de Estado para buscar uma saída para a situação de violência e instabilidade que assola o país foi tomada em conjunto com o primeiro-ministro do país, Mari Alkatiri.
''As medidas de emergência anunciadas não impedirão que o presidente da República de declarar (futuramente) estado de sítio, de acordo com as normas constitucionais'', disse Gusmão, que leu um comunicado e não respondeu a perguntas.
O estado de emergência nacional durará 30 dias. Gusmão voltou ontem a apelar aos grupos armados que entreguem as armas para permitir o restabelecimento da normalidade. Desde a semana passada, ao menos 20 pessoas morreram, dezenas de casas e comércios foram queimados e milhares ficaram desabrigados na onda de violência no país.
Os distúrbios são os mais sérios desde que o Timor Leste se tornou independente da Indonésia, em 1999, em uma onda de violência que só teve fim com a chegada de uma missão de paz internacional liderada pela Austrália. Após o fim dos 24 anos de ocupação indonésia, a ONU administrou o país pelos três anos seguintes. Em 2002, o Timor Leste tornou-se um Estado soberano.
Os mais recentes confrontos tiveram início em março último, quando cerca de 600 soldados, que representam 40% das forças armadas do país, foram demitidos após entrarem em greve para protestar por melhores condições nas forças armadas.
Parte dos soldados deixou a capital e se estabeleceu nas montanhas da região, ameaçando iniciar uma guerrilha caso não fossem readmitidos no Exército. O caos que se instalou no Timor Leste fez com que o governo pedisse o auxílio de outros países.
Na semana passada, o Timor Leste pediu que o envio de tropas estrangeiras para ajudar a restabelecer a ordem, após vários dias de violência. Forças australianas, malaias, neozelandesas e portuguesas chegaram à capital na quinta-feira para dar fim à violência.
Nas ruas de Dili, a polícia e o Exército se esforça para manter o controle. ''Estamos patrulhando cada região da cidade'', afirmou o tenente Mick Mumford. ''Não podemos colocar um soldado em cada rua (...), mas podemos garantir que há homens nas ruas.''
Segundo a Cruz Vermelha, mais de 40 mil pessoas foram desalojadas devido à violência e muitos já sofrem com a falta de alimentos. ''Não temos nada para comer há dois dias, senão frutas de árvores'', afirmou Maria D'almeida, que mora em Dili e esperava pelos filhos. ''Podemos comprar comida, mas onde?'', questionou.

mockup