Presidente abandona palácio em Quito
Associated Press
De Quito
O chefe do Comando Conjunto das Forças Armadas do Equador, general Carlos Mendoza, retirou ontem à tarde o apoio que vinha dando ao presidente do país, Jamil Mahuad, ante à intensificação da crise política. Pedimos a ele que renuncie, disse Mendoza.
Não aceitarei insinuações e não renunciarei, reagiu Mahuad. Se esse é um golpe militar, pelo qual pretendem tomar o poder pela força, então, por favor, tomem o poder pela força, prosseguiu, num pronunciamento em cadeia de rádio e TV. Eu não fugirei das minhas obrigações até o último minuto.
Ontem à noite, as informações eram de que o presidente Jamil Mahuad abandonara o Palácio do Governo em uma ambulância rumo a uma base militar do aeroporto Mariscal Sucre. Testemunhas disseram que o avião presidencial estava na pista da base militar. Mahuad teria deixado o Palácio do Governo uma hora depois que as Forças Armadas pediram a sua renúncia. Segundo o ministro do Governo, Vladimiro Alvarez, Mahuad estava acompanhado de ministros e recebeu garantias dos militares sobre sua integridade pessoal. Policiais antimotins tentavam impedir ontem que manifestantes chegassem ao palácio de Governo, disparando bombas de gás lacrimogêneo.
Ontem à noite, o coronel Fausto Cobo, um dos líderes da tentativa de golpe de estado no Equador, disse que ninguém quer derramar sangue, ao fazer um apelo às tropas para que apóiem a insurreição para uma mudança de governo.
O Conselho Permanente da Organização de Estados Americanos (OEA) marcou uma reunião de emergência ontem à noite em Washington (22h de Brasília) a pedido do embaixador equatoriano. Vários presidente latino-americanos, entre eles o brasileiro, pediram que seja mantido o Estado de Direito e a democracia no Equador.
Pela manhã, centenas de indígenas entre os milhares que protestavam em Quito durante toda a semana exigindo a renúncia de Mahuad atravessaram a barricada que protegia o edifício da sede do Congresso, invadiram o prédio, fizeram vários reféns e anunciaram a formação de uma junta de governo de salvação nacional. A participação de grupos de militares da ativa que apoiavam os indígenas transformou a manifestação violenta numa tentativa de golpe de Estado.
Depois de gritar a batalha está ganha o presidente da Confederação de Nacionalidades Indígenas (Conaie), Antonio Vargas, anunciou no início da noite que em duas horas tomariam o último bastião para controlar todo o poder no Equador: a sede do Governo. Vargas disse à imprensa que o ocorrido foi uma revolução sem sangue em alusão à tomada do Congresso e do Palácio da Justiça.
O coronel do Exército Lucio Gutiérrez, pouco conhecido até ontem, foi nomeado presidente da junta de governo pelos líderes do movimento indígena. O político de oposição e ex-deputado Napoleón Saltos leu um comunicado no qual anunciou os outros dois membros da junta: o presidente Conaie, Antonio Vargas, e o ex-vice-presidente da Corte Suprema Carlos Solórzano. Ao mesmo tempo, os manifestantes anunciaram a instalação de um Parlamento do Povo do Equador.
Os indígenas compõem 40% da população equatoriana. Cerca de 5 mil deles chegaram a Quito no começo da semana para participar do levante indígena convocado pela Conaie para destituir Mahuad, os membros do Congresso e os integrantes do Judiciário considerados por eles representantes de um sistema político corrupto e indiferente à penúria dos desfavorecidos.





