Premiê da Etiópia ganha Nobel da Paz
Abiy Ahmed recebeu o reconhecimento pelos esforços para alcançar a paz com a Eritreia
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de outubro de 2019
Abiy Ahmed recebeu o reconhecimento pelos esforços para alcançar a paz com a Eritreia
Folhapress 
São Paulo - A assinatura do acordo de paz que pôs fim a duas décadas de hostilidades com a Eritreia rendeu ao primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, o Nobel da Paz de 2019.

Ao anunciar a premiação, nesta sexta-feira (11), o comitê responsável pela honraria afirmou ter escolhido o premiê etíope devido aos "seus esforços em alcançar a paz e a cooperação internacional e em particular sua iniciativa decisiva para resolver o conflito com a vizinha Eritreia".
"Me senti tão pequeno e emocionado quando ouvi a notícia", disse Abiyh, em uma ligação telefônica com o comitê do Nobel. "O prêmio também reconhece todas as partes que trabalham pela paz e reconciliação na Etiópia e nas regiões leste e nordeste da África", acrescentou Berit Reiss-Andersen, a presidente do Comitê Nobel da Noruega, que fez o anúncio do vencedor, em Oslo.
Abiy é o líder mais jovem da África, com 43 anos. Ele chegou ao poder em abril de 2018 impulsionado por uma revolta popular com a promessa de democracia e reformas. Faz parte do grupo Oromo, o maior do país, que liderou os atos que obrigaram seu antecessor, Hailemariam Desalegn, a renunciar.
No cargo, cedeu à Eritreia um território fronteiriço disputado entre os dois países, movimento que levou à assinatura, em julho de 2018, do pacto de paz. O rechaço da Etiópia em conceder aquela área bloqueava as relações bilaterais permeadas por uma guerra que os opôs entre 1998 e 2000 e que deixou 80 mil mortos.
"A paz não surge apenas das ações de uma parte sozinha. Quando o primeiro-ministro Abiy estendeu a mão, o presidente Afwerki [Isaias Afwerki, da Eritreia] a agarrou e ajudou a formalizar o processo de paz entre os dois países. O comitê norueguês do Nobel espera que o acordo de paz ajude a trazer mudanças positivas para toda a população da Etiópia e da Eritreia", acrescentou a porta-voz do prêmio.
Em comunicado divulgado minutos após o anúncio, o gabinete do premiê etíope afirmou que o prêmio é "um testemunho atemporal aos ideais MEDEMER (sic) de unidade, cooperação e coexistência mútua que o premiê sempre defendeu". "Medemer" é um termo da língua amárica (etíope), que remete à ideia de união, sugerindo reconciliação. Abiy "fez da paz, do perdão e da reconciliação políticas chave de sua administração" desde que assumiu o poder, prossegue o comunicado. "Estamos orgulhosos como nação", publicou o gabinete de Abiy em uma rede social.
Alguns benefícios do acordo de paz, porém, tiveram vida curta. As fronteiras terrestres abriram em julho, mas fecharam em dezembro sem explicação oficial. Para analistas, isso pode ter ocorrido porque o líder da Eritreia esperava que Abiy reprimisse com mais força o antigo governo, que travou a guerra e se recusou a aceitar a arbitragem internacional sobre a fronteira disputada.
Ex-militar especializado em inteligência cibernética, o premiê por vezes ignora ministérios para conseguir concretizar as reformas, que de outra forma ficariam presas em burocracias. Mas tal atitude gera críticas de culto à personalidade.
Essas reformas - dentre as quais se incluem o não banimento de partidos políticos, a soltura de jornalistas presos e processos contra oficiais acusados de tortura - atraem multidões em comícios. "Abiy parece ter confiado em seu governo carismático", diz Dereje Feyissa, professor da Universidade de Addis Abeba. "A questão é se isso é sustentável. A euforia está diminuindo."
Observadores dizem que as rápidas mudanças de Abiy são uma tentativa deliberada de atrapalhar oponentes do governo anterior, dominado por um grupo étnico pequeno, mas poderoso - os Tigrayans.
O primeiro-ministro etíope também já sobreviveu a uma tentativa de assassinato. Diante de milhares de pessoas reunidas na praça Meskel para um comício, Abiy acabava seu discurso e cumprimentava a multidão quando uma explosão aconteceu. Uma granada lançada matou uma pessoa e deixou mais de 150 feridos no centro da capital Adis Abeba.
A Etiópia, cuja população é a segunda maior da África, está entre as economias de mais rápido crescimento do continente há mais de uma década. Mas a incerteza sobre a capacidade de Abiy para realizar todas as reformas preocupa tanto os cidadãos quanto os investidores estrangeiros que ele vem cortejando para desenvolver os setores antiquados de telecomunicações e bancos do país.


