France PresseManifestantes protestam em Vancouver contra ajuda ocidental à ÁsiaCom um sorriso nos lábios a demonstrar sua satisfação em ferir os ouvidos da platéia de altos executivos de empresa que foi escutá-lo domingo à noite, o primeiro-ministro da Malásia, Mahathir Mohamad, contestou o direito dos ‘‘jogadores do mercado’’ de capitais de destruir em instantes o trabalho de anos de países em desenvolvimento na construção de economias prósperas e previu que o dogmatismo religioso com que se está aplicando a ‘‘ideologia do livre mercado’’ na economia global produzirá um desastre semelhante ao que foi provocado pelo dogmatismo das economias de comando durante a era soviética.
‘‘Infelizmente, parece que nós saltamos da frigideira para a fogueira’’, disse Mahathir, que encerrou uma das conferências de empresários paralela ao encontro anual do foro de Cooperação Econômica da Ásia e Pacífico (Apec). ‘‘No passado, tivemos os estados socialistas e comunistas e seu planejamento central, que eram sacrossantos e que durante setenta anos condenaram milhões à miséria’’, afirmou ele. ‘‘Neste caso, havia um excesso de governo e ninguém podia tentar mudar nada porque a ideologia da supremacia do estado era religião e não tolerava os heréticos que a criticavam’’.
‘‘Hoje, temos a ideologia do mercado, a infalibilidade da livre empresa’’, disse Mahathir. ‘‘Os governos não podem interferir com as forças de mercado, o mercado fará suas próprias correções e tudo o que você tem a fazer é arrumar corretamente os fundamentos da economia que as coisas endireitarão por si mesmas’’. Os proponentes das forças de mercado dizem que ‘‘levará tempo, que muita gente sofrerá, que os países perderão sua independência, que os fortes prevalecerão sobre os fracos’’ mas que isso é bom porque ‘‘as pessoas certamente preferem ter os produtos e serviços dos mais capazes de fornecê-los a ter sua independência e aos maus serviços e bens que seu próprio povo e governo fornecem’’.
Para Mahathir, que defende um modelo de cooperação entre governo e empresas, o ‘‘novo credo do mercado’’ é tão nocivo quanto o dogmatismo comunista, pois está baseado no mesmo erro, que é dar poder absoluto às forças do mercado. Nós já estamos vendo o efeito desse poder absoluto hoje no empobrecimento e a miséria de milhões de pessoas e sua eventual escravização’’.
O ringgit, a moeda da Malásia, perdeu 40% de seu valor desde o início da crise. Pelos cálculos de Mahathir, os países asiáticos atingidos pelas turbulências ‘‘perderam em semanas duas décadas de crescimento’’ e viram seu PIB per capita recuar 30%. Em quatro desses países (Malásia, Indonésia, Tailândia e Filipinas), a perda de poder aquisitivo soma perto de US$ 300 bilhões, ou quase um terço do PIB brasileiro, levando empresas a falência e a uma explosão do desemprego.
‘‘Ninguém em sã consciência pode dizer que a situação atual é melhor do que a que existia quando estas nações estavam crescendo’’, disse o primeiro-ministro malaio. ‘‘É verdade que havia abusos, corrupção, esquemas fraudulentos e que ainda havia pobreza’’, afirmou. ‘‘Mas o sofrimento hoje é maior do que antes’’. Qual a causa dessa súbida recessão? Mahathir contestou a tese de que os desvios nos fundamentos das economias desses países possam, sozinho, ter provocado a crise. ‘‘A verdade é que alguns jogadores do mercado decidiram ostensivamente se retirar para evitar perder dinheiro quando a economia entrou em colapso’’.
Para Mahathir, está aí o nó da questão. Os investidores que provocaram a desvalorização ‘‘não estavam em nenhuma posição de risco, mas apenas iniciaram o processo e continuaram a tomar emprestado e a vender e comprar para produzir resultados’’. Em suma, eles não tinham em jogo nenhum ativo real, em dinheiro ou em ações. A bem sucedida defesa que o governo brasileiro fez até agora do real parece dar alguma razão ao líder malaio.

mockup