Português antecipa tragédia
Marcos Cesar Gouvea
De Londrina
Na véspera do referendo de 30 de agosto, um português radicado no Paraná antecipou à Folha do Paraná/Folha de Londrina a tragédia em curso no Timor Leste. Ele trabalhava em um hospital de Dili na época da descolonização e invasão indonésia em 1975. Temendo se identificar, ele credita o drama do povo timorense à política externa de Lisboa após a Revolução dos Cravos, em Portugal, em 1974.
A descolonização abrupta do ‘‘Timor Lorosae’’ (terra onde nasce o sol) criou uma terra de ninguém na parte oriental da ilha. O Ocidente estava assustado pela guerra fria, pelo trauma norte-americano no Vietnã e pela ‘‘ameaça comunista’’. O mundo ocidental deu sinal verde para que a Indonésia de Suharto ocupasse o Timor Oriental, depois de uma curta guerra civil entre as forças políticas locais e um também curto período de um ‘‘governo independente’’, de esquerda.
As tragédias do Timor Leste, com os massacres de inocentes, vieram de várias formas conforme ele. Na anarquia não havia ideologia, havia a confusão, onde qualquer mão assassinava. Os equívocos conduziram à morte e a 25 anos de sofrimentos e tragédias, que se renovam agora, após o plebiscito.
Algumas estatísticas falam em 200 mil mortos no Timor no período que se seguiu à saída de Portugal. De acordo com este cidadão português, radicado no Brasil, cem mil teriam sido mortos pelas forças da Frente Revolucionária do Timor Leste Independente (Fretilin) e os outros 100 mil pelos indonésios, após a invasão de 8 de dezembro de 1975.
Outras fontes culpam as forças ocupantes pelo genocídio dos 200 mil. As organizações que sucederam a Fretilin, tanto na área política quanto armada, mantiveram e organizaram a resistência à ocupação neste 25 anos.
A informação deste cidadão, que estava lá, de 1973 a 1975, diz que a população de timorenses do Leste era de 650 mil, com dois mil portugueses. ‘‘Um vida de paz. Lisboa mandava 600 milhões de escudos por mês. Um cabo timorense, no exército português, ganhava o equivalente a um capitão indonésio.’’
‘‘Em abril de 1975, o novo regime revolucionário português mandou seis majores para tratar da descolonização do Timor Leste. Ao mesmo tempo, 60 estudantes timorenses eram ‘doutrinados’ em Lisboa, para repassar a ‘doutrina’ a 2 mil estudantes ginasianos em Dili’’, conta. Com a doutrina Kissinger dominando a agenda ocidental, montava-se o cenário de morte com a ‘‘ameaça vermelha’’ no Timor.
A correlação política timorense do Leste estaria assim na época: 95% apoiava a União Democrática de Timor (UDT), pró-integração a Portugal e uma transição lenta para a independência; 2,5% apoiaria a aliança pró-Indonésia; e 2,5% apoiando a Fretilin. A esta foi entregue todo o armamento remanescente do exército português na ilha. Entretanto, o chefe de polícia português, Maggiollli Gouveia, entregou à UDT as armas da polícia, antes de ser assassinado, diz a nossa testemunha ocular.
De acordo com esta testemunha em Dili, em julho e agosto de 1975 houve um período de terror. ‘‘Um exemplo: 35 aldeãos foram executados e queimados em sua própria casa. Tudo com a cumplicidade dos militares portugueses.’’
A 30 de agosto de 1975, o governador Lemes Pires embarcou, secretamente, suas tropas para a Ilha Ataúro e mandou médicos e feridos para a Austrália. Neste contigente estava este cidadão português, que vive hoje no Brasil, e ainda tem medo de se identificar. ‘‘Os barcos de guerra da Indonésia, em combinação com o próprio governo português já estavam ao largo’’, disse.
‘‘Os Estados Unidos queriam liquidar o império português e tinham interesse no petróleo no Timor e Angola. A Indonésia foi convidada a entrar.’’ Nesta versão, Jacarta nem queria. ‘‘O cônsul indonésio na época, e ele disse isso para mim, aceitava o Timor independente desde que não comunista.’’ Jacarta só temia que o território se transformasse em uma base comunista para atacar a Indonésia, que já tinha feito o seu próprio genocídio contra os seus 500 mil (ou 1 milhão?) ‘‘comunistas’’.
A responsabilidade da Fretilin pelas 100 mil mortes, lembra o português, não deve ser esquecida. Ela mostra uma entrevista do bispo Carlos Belo, à revista ‘‘Time’’, onde o líder religioso diz: ‘‘Os crimes da Fretilin não devem ser esquecidos nem perdoados.’’
A 8 de dezembro de 1975, com 20 mil pára-quedistas indonésios e 23 navios de guerra invade o território e na sequência morrem mais 100 mil timorense. Naquela momento, a população tinha baixado para 400 mil, mais ou menos. Seis meses depois tinha 800 mil, depois de transferências de timorenses indonésios (Timor Oeste) e da Ilha de Java. ‘‘A Indonésia é uma ditadura com mando da Ilha de Java.’’
Este fato explica a reação à independência hoje e o massacre e limpeza étnica dos independentistas. Neste 25 anos, os filhos dos ‘‘importados’’ tem mais ou menos 20/25 anos. ‘‘São eles que fazem a guerrilha pró-indonésia com o apoio dos militares.’’ São estes timorenses, filhos de indonésios, que inclusive servem aos milhares no exército e polícia indonésios, que espalham o terror hoje na ilha.

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