Por que os uruguaios são os únicos sul-americanos autorizados a entrar nos países da UE?


SYLVIA COLOMBO
SYLVIA COLOMBO

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Qual seria a razão de o Uruguai registrar menos de mil casos e apenas 27 mortes por Covid-19? "Testar, testar e testar", explica o médico Rafael Radi, integrante da equipe que assessora a Presidência do país.

A estratégia faz parte da receita para se manter com uma das cifras mais baixas de infecções por coronavírus na América do Sul, atrás apenas do Suriname e da Guiana. Por isso, foi o único país da região na lista de turistas estrangeiros autorizados a entrar nos países da União Europeia a partir de quarta (1º).



O Uruguai realiza 18.892 testes por milhão de habitantes, índice no qual está à frente de Brasil (14.445/1 milhão), Colômbia (14.612/1 milhão), Argentina (7.798/1 milhão) e Paraguai (9.723/1 milhão).

Em números absolutos, desde que foi confirmado o primeiro caso de Covid-19 no país, em meados de março, o Uruguai já realizou 65.626 testes, de acordo com o site Worldometer, ou seja, 1,9% da população, de 3,44 milhões de pessoas, fez exames de detecção.

Além dos testes, especialistas apontam o bom sistema de saúde do país, tanto o público quanto o privado, como motivo para os bons números.

Mais de 70% da população adere às chamadas "mutuales", sistema que funciona como uma cooperativa, sem a participação do Estado, mas dos cidadãos, que pagam uma mesma taxa. Os que necessitam de atendimento são pagos pelos demais.

Apenas 15% da população têm um plano de saúde privado como os que operam no Brasil.

E quem não nem um nem outro pode ainda usar a rede pública, disponível para todos os cidadãos.

Os uruguaios, porém, tomaram um susto no último dia 19, quando um foco de 18 casos surgiu no departamento de Treinta y Tres. De cada quatro novas infecções detectadas desde então, três vinham dali, onde também ocorreu a primeira morte depois de mais de duas semanas sem óbitos. A notícia foi manchete nos jornais do país.

O presidente Luis Lacalle Pou, que assumiu o cargo em março, viajou até Treinta y Tres e lá fez um "mea culpa": "Relaxamos um pouco. Retrocedemos algumas casas no tabuleiro. Vamos ter de colocar uma pausa na reabertura e retroceder tudo o que for necessário".

O país vinha reabrindo shoppings, lojas, restaurantes e até mesmo escolas. Desde o começo, Lacalle Pou, do partido Nacional, liberal de centro-direita, estava convencido de que uma quarentena não deveria ser feita.

"Tomei essa decisão por convicção política, de que o Estado não pode se meter nas decisões do cidadão. Investimos em conscientização e prevenção", disse, em entrevista a uma emissora de TV.

Para Mariana Pomiés, diretora da consultoria Cifra, o "uruguaio médio aceita as medidas de prevenção sem precisar ser forçado a isso devido ao alto nível de educação no país".

"Campanhas de prevenção na TV e pronunciamentos constantes do presidente e das autoridades de saúde foram suficientes para conscientizar a população."

Outra preocupação do Uruguai é a fronteira com o Brasil, principalmente na região de Rivera, vizinha à Santana do Livramento. Um dos focos recentes de contágio no país veio de uma mulher que havia cruzado para o lado brasileiro para fazer compras e, depois, foi de ônibus a Montevidéu.

As autoridades de saúde pública seguem entrando em contato com todas as pessoas com quem ela esteve durante o trajeto para aplicar testes de detecção da Covid-19.

Algo semelhante ocorreu, no começo da pandemia, quando uma socialite chegou da Europa e resolveu ir a uma festa no bairro nobre de Carrasco, contaminando dezenas de pessoas.

Entre os países sul-americanos, há outro que vem se saindo bem contra o coronavírus. Trata-se do Paraguai, com 2.221 casos confirmados e 17 mortes, segundo dados compilados pela Universidade Johns Hopkins. A população do país, de 6,9 milhões de habitantes, no entanto, é duas vezes a do Uruguai.

A estratégia paraguaia foi diferente. O presidente Mario Abdo Benítez, de direita, apostou em proibições, medidas de quarentena e punições para os que violassem as regras de distanciamento. Agora, ainda com as fronteiras fechadas, começa a reabrir a economia do país.



Ou seja, de um lado, o Uruguai, com políticas liberais e progressistas. De outro, o Paraguai, por uma via mais linha-dura. Ambos com sucesso até aqui, mesmo levando em conta o fato de terem como vizinhos Brasil e a Argentina, países com dificuldades muito maiores de conter o vírus.

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