População nas ruas conseguiu transformar a história do país
Ney de SouzaMemorialA população paraguaia está transformando em memorial o local em que quatro pessoas morreram. Há reivindicações, até, sugerindo que a praça receba um novo nome que marque a data e os acontecimentos ali ocorridos que modificaram, conforme os observadores, a própria história do ParaguaiUm grupo de cidadãos anônimos conseguiu mudar a história do Paraguai. É assim que analistas políticos, a imprensa e a maior parte da população está avaliando o nebuloso episódio da madrugada do dia 27 de março, na Praça do Congresso. Naquela madrugada, morreram na praça 4 pessoas e outras quinhentas ficaram feridas, algumas gravemente. Nos dias imediatos, pelo menos mais duas pessoas, dentre os feridos, morreram. Na opinião dos agentes citados acima, aquele acontecimento precipitou a renúncia do presidente Raúl Cubas Grau e afastou do país o risco iminente de um golpe de Estado.
Segundo denúncias feitas pela imprensa e por políticos de oposição, franco-atiradores instalados em um prédio ocupado principalmente por órgãos governamentais, de frente para a praça, foram os responsáveis pelas mortes. Com armas potentes, esses homens teriam atirado contra as cerca de 20 mil pessoas que se concentravam no local para exigir a renúncia do presidente.
Foram momentos de horror, resume o estudante do quarto ano de medicina Marcos Freitas, de 34 anos, filiado ao Partido do Encontro Nacional (PEN) e que participava das manifestações. Segundo ele, os policiais que estavam no local demoraram para agir. Filho de brasileiros, Freitas - que trabalha no pronto-socorro do Hospital Nacional - ajudou a socorrer os feridos.
Na última terça-feira, a Folha encontrou Freitas novamente na Praça do Congresso, onde ele foi acompanhar a manifestação política organizada após a morte de uma das pessoas que ele socorreu: o estudante Henry Romil Bernal Díaz, de 20 anos. Días era a sexta vítima fatal do confronto na praça. Antes de seguir para o cemitério, o carro com o caixão passou pelo prédio do Senado e depois pelo da Câmara. Parentes do rapaz receberam a solidariedade de parlamentares de oposição e de pessoas que passavam pela praça.
Nos locais em que os mortos caíram, foram colocadas cruzes de madeira. Em frente ao prédio do Senado, um pequeno cartaz, escrito a caneta, sobre quatro cruzes, afirmava: Saudações, jovens da liberdade! Muito obrigado, do povo paraguaio. Um pequeno memorial com uma cobertura de lona, erguido em homenagem a dois dos mortos, se transformou em um ponto de orações, vigília, atos políticos e discursos.
A forma como essa juventude enfrentou e venceu pode ser a base para a construção de uma sociedade baseada nos princípios da liberdade e da democracia, avaliou o analista político da Organização das Nações Unidas (ONU) Leandro Despuy. O povo deu uma mensagem de que não vai suportar mais o autoritarismo e a intimidação. Na semana passada, jornais de Assunção alinhados à oposição publicaram cadernos com a história dos mortos, que tinham idades entre 18 e 35 anos.
Durante a semana passada, as marcas dos dias que mudaram a história do Paraguai ainda permaneciam na Praça do Congresso (cujo nome oficial é Juan de Salazar). Os vidros dos seis primeiros andares do edifício - de quinze pavimentos - de onde os franco-atiradores teriam disparado, permaneciam quebrados. Pilares e até um totem da Câmara dos Deputados foram pichados com inscrições acusando Cubas e Oviedo de assassinos.
Até agora, além da discussão política, o fato que mais mobiliza os paraguaios é a fuga de Cubas e Oviedo e sua aparente impunidade. O novo Governo, entre tantas outras preocupações, já anunciou a disposição de fazer gestões, junto ao Brasil e à Argentina, para conseguir a extradição de ambos.





