Renan Antunes de Oliveira
Agência Estado
De Filadélfia, EUA
O carpinteiro brasileiro Leandro Tiago dos Santos está vivendo escondido em algum lugar dos Estados Unidos, protegido por delegados federais, como testemunha de um caso de abuso da polícia da cidade da Filadélfia, capital da Pensilvânia.
Ao dar queixa na delegacia de North East do roubo de seu carro, cometido por um policial, ele acabou preso e espancado. Ficou 18 horas despido, algemado e deitado no chão da delegacia, com os pés amarrados numa mesa, só sendo libertado após retirar a queixa.
Santos fez a denúncia sem saber que o ladrão era policial. O detetive Ryan Shiver, 24 anos, lotado na delegacia North East, roubou o carro dele, provocando um acidente no qual duas pessoas morreram, em 31 de janeiro.
Colegas da mesma delegacia do detetive atenderam a ocorrência. Eles alteraram a cena do acidente, para protegê-lo – uma lei local prevê prisão perpétua para quem provoque acidentes com carro roubado que resultem em morte.
O FBI, a polícia federal americana, entrou no caso depois de uma denúncia de um agente do Serviço de Imigração, chamado à delegacia para deportar o brasileiro, um imigrante ilegal nos EUA. Ele viu Santos sendo espancado e alertou ao FBI.
Um grupo de agentes federais que já investigava a polícia local (controlada pelo município) aproveitou a denúncia e deu uma batida na delegacia. Santos já havia sido libertado quando eles chegaram, mas os agentes descobriram a trama e prenderam três policiais. O documento assinado por Santos foi invalidado e ele inocentado.
Depois de concluir seu inquérito, o FBI entregou o brasileiro à promotoria pública como testemunha do caso. Agora, ele está sob a custódia dos U.S.Marshals, os delegados federais que são a elite do judiciário americano, que deverão apresentá-lo à Corte Federal dia 28. O Consulado em Nova York foi notificado e a Imigração legalizou Santos no país.
O incidente produziu dois processos. O primeiro é da Procuradoria federal contra a polícia. O segundo é o de Santos contra a cidade, no qual ele pede US$ 16 milhões de indenização, por violações de direitos civis.
Seus advogados e os da cidade tentam acordo nos bastidores. Nos dois, ele é identificado com um nome falso, para evitar que seja descoberto pela polícia.
Leandro Tiago dos Santos deu entrevista numa filial da rede de restaurantes Boston Market, na noite de sexta-feira, num bairro da periferia.
O contato com ele foi feito através de advogados e autoridades, com a condição de que suas fotos não fossem publicadas nos Estados Unidos, nem seu esconderijo revelado.
Ele tem 25 anos, goiano, natural de São Luís dos Montes Belos, filho de um pequeno fazendeiro, seu Antero. Estudou o primário na cidade e fez o segundo grau em Goiânia. Em 1996, pagou US$ 4 mil para um guia mexicano e entrou nos EUA ilegalmente, nadando através do Rio Grande, na fronteira com o México.
Uma vez na Filadélfia, a 200 quilômetros de Nova York, ele montou uma pequena empresa de construções. Tinha oito empregados, todos ilegais.

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