Poder do ''pequeno rei'' nem sempre foi inspirado
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de fevereiro de 1999
Gilles Lapouge 
O mundo inteiro contempla, com algo que parece ser amor, esse homenzinho que está à beira da morte - e que talvez já tenha morrido - em Amã, capital da Jordânia, sua calva, seu rosto destruído. A extrema coragem (costumeira na dinastia hachemita), a dignidade, a recusa de mentir, são coisas que inspiram respeito.
Enquanto tantos grandes desse mundo, de François Mitterrand a Boris Yeltsin, mentiram descaradamente quanto a sua decadência física e às tramas mortais, o soberano jordaniano jamais quis enganar. Mais ainda: suas últimas forças foram mobilizadas na ajuda - mal sucedida - à solução da tragédia palestino-israelense e depois à substituição de seu sucessor e irmão Hassan, como príncipe herdeiro, considerado inseguro, pelo seu próprio filho mais velho, Abdalla.
Mas essa onda de emoções legitimamente desencadeada não deveria encobrir as sombras que pairam sobre a Jordânia e, para além dela, sobre todo o Oriente Médio. O poder do pequeno rei nem sempre foi inspirado e, às vezes, Hussein demonstrou extrema brutalidade.
Recordemos: em setembro de 1970, Amã se tornara a base da retaguarda dos palestinos, uma situação que Hussein decidiu acabar. Nesse setembro seu exército eliminou os bandos palestinos do país, numa limpeza implacável, que deixou sangue e ossadas. Nas semanas que se seguiram formou-se uma organização terrorista palestina, vingativa e assassina.
Seu nome: Setembro Negro.
Nos anos posterioes o pequeno rei continuou ziguezagueando entre a Palestina, mundo ocidental, Israel, diplomacia e violência. E nem sempre teve mão feliz: no momento em que o Iraque invadiu o Kuwait, foi, talvez, o único líder árabe a apoiar o iraquiano Saddam Hussein.
Pelo que a Jordânia foi posta em quarentena, sufocada e privada de bilhões de dólares de ajuda árabe, enquanto que 300 mil emigrados jordanianos, que se encontravam em outros países do Golfo Pérsico, foram deportados para a Jordânia.
Pouco depois, Hussein deu outro passo em falso. Isolado e confiando nas perspectivas de paz entre Israel e a Palestina, Hussein assinou um tratado de paz em separado em Jerusalém.
Resultado: a reconciliação com os emirados do Golfo que passaram a financiá-lo. Em compensação, o desentendimento com o Iraque.
Essas ratas, essa mudança de rumos, o namoro com Israel, produziram um efeito desastroso sobre seu conceito na opinião pública: o povo jordaniano não compreende essas sutilezas, que só geram frutos amargos para a Jordânia.
A saúde econômica do reino padece com esse vai-e-vem diplomático.
Faminto, o povo se revolta. Em 1996, a triplicação do preço do pão promove rebeliões. Em 1998, o povo volta às ruas para apoiar o Iraque ameaçado de bombardeios norte-americanos e britânicos.
E assim existe um contraste real entre a estatura moral do agonizante e o balanço de seu longo, muito longo reinado. Ele deixa um país infeliz, perseguido pela miséria e afastado de um grande número das outras nações árabes sem, no entanto, merecer reprovação do governo conservador de Jerusalém.
O que explica a desorientação de jordanianos, árabes e do mundo inteiro diante dessa morte programada. De um lado, uma grande estima e um pesar sincero e de outro, as graves dúvidas quanto ao futuro político do reino hachemita.


