Plebiscito define a sorte da Argélia
Gilles Lapouge
Agência Estado
A tarde de ontem, 16 de setembro, fixou o destino da Argélia. Dando força de lei ao perdão, à reconciliação, ela deve encerrar a longa litania do sangue se, pelo menos, o presidente Bouteflika souber explorar esse momento de graça.
Já foi um enorme desafio, uma provocação, organizar um plebiscito pela paz. Lembremos: há anos, os bandos de fanáticos fizeram reinar o terror. Os fundamentalistas fizeram explodir bombas nos mercados, invadindo, à noite, aldeias e assassinando com um cuidado meticuloso cinquenta, cem, cento e cinquenta homens, mulheres e crianças.
Diante desse delírio fundamentalista, o governo da época, o do general Zeroual, lançava seus soldados e policiais na batalha, e respondia à loucura fundamentalista com uma igual loucura militar.
Resultado: cada um dos dois campos subia aos extremos, endurecia-se, matava cada vez mais.
E a Argélia parecia ter desaparecido, ter sido dissolvida, enterrada.
Ela não era mais do que esse soluço, essa condensação de vapor de sangue nas colinas. O desespero arruinava o povo. Nenhuma vontade subsistia. O país degringolava em um buraco sem fundo.
Ora, ontem, esse mesmo país mártir, inerte, resignado, foi às urnas.
Como se deu esse milagre? É que, no início de 1999, o poder militar tendo, enfim, avaliado seu fracasso, deu a mão a um poder civil, nomeado por eleições livres.
Essas eleições foram realizadas no mês de abril. Foram livres?
Formalmente, sim. Mas, como um dos candidatos, Abdelaziz Bouteflika, era muito claramente o candidato dos militares, todos os outros candidatos se retiraram e, então, Bouteflika foi eleito. Sem adversários. Era um mau augúrio para a volta à democracia.
Ora, Abdelaziz Bouteflika soube, em poucos meses, inverter a opinião pública: em primeiro lugar, em vez de falar em repressão, erradicação dos fundamentalistas, Bouteflika fala de acordo, de perdão. Ele chama os fundamentalistas moderados para entrar no jogo político. Promete o perdão aos combatentes fundamentalistas que abandonarem suas armas, etc. E organiza o plebiscito, que aconteceu nesta quinta-feira, 16 de setembro, sobre a harmonia civil e a paz.
Mas isso não é tudo. Abdelaziz Bouteflika percorre todo o país, aparece em um hospital repentinamente, em uma escola, protesta contra as condições aviltantes em que vive o povo. E seu discurso funciona muito bem: esse homem, que foi maciçamente rejeitado em abril, após sua eleição duvidosa para a presidência é, hoje, maciçamente aprovado.
Aqui, entra um elemento essencial: o talento. Os dirigentes anteriores da Argélia eram medíocres, mal-humorados, ficavam escondidos em seus palácios e eram incapazes de fazer um discurso audível.
Nada disso acontece com Bouteflika. É um orador extraordinário. Seus discursos encantam até mesmo seus inimigos: falando alternativamente em árabe brilhante ou em francês (a língua francesa, antes dele, havia sido banida de qualquer discurso oficial), lírico, comovente ou exaltado, às vezes amigo, e às vezes devastador, ele encanta. Chega mesmo a fazer rir esse país desesperado (caberia estudar o papel da eloquência no jogo político moderno - Churchill, Castro, de Gaulle, Kennedy ...). Evidentemente, esse milagre precisa ser consolidado.
A Argélia, cansada de atrocidades, está sem energias. A Argélia é uma grande doente. Ela tem fome. Ela morre de subemprego. Os capitais estrangeiros fogem dela. E, em sua sombra, os fundamentalistas radicais, embora, no momento, se calem, afiam ainda suas espadas para recomeçar sua sinistra carnificina.
O caminho é longo, cheio de pedras, perigoso. Pelo menos, pela primeira vez, o sorriso, às vezes à alegria, enobrecem novamente as fisionomias argelinas. E é isso que, sem dúvida, formará o melhor aliado de Bouteflika em seu combate contra a barbárie, a degradação e a morte.





