Plebiscito de paz pode provocar guerra
Gilles Lapouge
Agência Estado
O Timor Leste essa antiga colônia portuguesa anexada pela Indonésia em 1976 está sendo agitada a ferro e sangue. Apesar disso, o plebiscito realizado nessa ilha na semana passada para perguntar aos timorenses se desejavam tornar-se independentes, ou se queriam continuar ligados à Indonésia mas com um estatuto de autonomia, ocorreu sem incidentes. E todas as pesquisas afirmam que os timorenses votaram maciçamente pela independência e a favor de uma ruptura com a Indonésia.
É por isso (por causa da vitória dos independendistas) que a violência explodiu logo depois: os antiindependendistas, que desejam manter o Timor Leste dentro da Indonésia, semearam o terror. Seus métodos são rudimentares: as milícias (ou seja, vagabundos e bandidos), com a cumplicidade do Exército indonésio, invadem um povoado com suas motos, gritando, espancando, ferindo e matando os moradores.
O caos é tamanho nessa pequena ilha católica, que o recurso aos boinas azuis parece a única saída. Somente os soldados da ONU poderiam fazer recuar as hordas enlouquecidas. Até mesmo assessores do presidente indonésio, por exemplo o secretário de Estado Muladi, apelam para os boinas azuis.
Mas a ONU é uma engrenagem lenta. Não se poderia pedir os boinas azuis a não ser depois de proclamada oficialmente a independência, isto é, na próxima terça-feira, dia 7 de setembro. Após essa data, haveria ainda uma demora antes de uma ação por parte da ONU. Uma demora tão longa que, quando chegassem os boinas azuis, o Timor leste já estaria em chamas.
Um país lidera o pedido de intervenção da ONU: a Austrália, (Darwin , no norte da Austrália, está a apenas 700 quilômetros de Dili, capital do Timor Leste). Além disso, os australianos constituem um dos alvos preferidos das quadrilhas de antiindependendistas desvairados. As milícias indonésias transferem sua cólera para os australianos, afirma o jornal The Australian.
A imprensa australiana apresenta um quadro aterrador: Dili tornou-se um campo de batalha depois que centenas de milicianos pró-Indonésia tomaram o controle e bloquearam as ruas, incendiaram as casas e saquearam o quartel-general da ONU, disse o Sydney Morning Herald.
Os jornais australianos lembraram também que, por ocasião da anexação do Timor Leste por parte da Indonésia, em 1976, cinco jornalistas australianos foram assassinados pelos soldados indonésios. Um membro da organização não- governamental Oxfam International fez assim o seu pedido de ajuda: Estamos aterrorizados aqui.
Alguns temem que essa ponta do Planeta se incendeie e que se veja desencadear nessa região uma verdadeira guerra (depois de tantas outras, desde Kosovo ao Afeganistão, etc.). Estão sendo tomadas algumas precauções de grande envergadura: a Cruz Vermelha Internacional de Genebra prepara-se para acolher 20 mil refugiados na fronteira entre as duas partes da ilha. O comandante militar indonésio da zona anunciou ter sido elaborado um plano para retirar 200 mil pessoas do Timor Leste (a população total é de 800 mil habitantes) se este plebiscito de paz resultasse, paradoxalmente, numa verdadeira guerra.





