O general Augusto Pinochet começou a viver ontem em prisão domiciliar. Ele foi notificado por uma funcionária do Judiciário de que está sendo processado por 57 homicídios e 18 sequestros de opositorres em 1973. As funcionárias judiciais e alguns policiais que levaram a notificação até a casa de veraneio de Pinochet, onde entraram rapidamente para evitar que os simpatizantes do ex-ditador os impedissem de cumprir a tarefa.
A histórica prisão domiciliar e o processo tiveram início às 16 horas locais. A operação jurídico-policial durou poucos minutos: os funcionários ingressaram na casa pela porta da frente, em veículos de vidro fumê, e logo em seguida se retiraram da residência em Los Boldos, a 130 km de Santiago, pela porta dos fundos, aparentemente para evitar os ‘‘pinochetistas’’ – frequentemente agressivos – que rodeavam a casa.
Segundo versões da imprensa, Pinochet recebeu a notificação acompanhado de seus advogados, que têm cinco dias para apelar do indiciamento.
O ex-ditador se encontra em Los Boldos desde sábado. Ali ficou sabendo na segunda-feira que o juiz Juan Guzmán decidiu processá-lo.
Ontem pela manhã, o ex-ditador recebeu a visita dos máximos dirigentes da aliança de partidos direitistas, entre eles o que ocupou altos cargos durante seu governo ditatorial, o deputado Alberto Cardemil.
‘‘O senador Pinochet está em situação complicada, está velho, enfermo e encurralado, e penso que é de bom tom fazer-lhe uma visita’’, disse Cardemil, presidente do partido Renovação Nacional (RN).
Enquanto oficiais de Justiça notificavam o ex-ditador chileno Augusto Pinochet, dezenas de manifestantes pinochetistas protestavam ontem na frente do Edifício das Forças Armadas, no centro de Santiago, contra o que qualificaram de ‘‘omissão’’ do Exército na defesa de seu ex-comandante. O principal alvo dos manifestantes foi o comandante-chefe das Forças Armadas, general Ricardo Izurieta, cujo gabinete se localiza no alto do edifício. ‘‘Izurieta, Izurieta, que o Exército se meta’’, era um dos slogans preferidos dos pinochetistas, que também insultavam o chefe do Exército aos gritos de ‘‘Izurieta, Izurieta, teu nome é gallineta (galinha pequena, em espanhol)’’ e ‘‘Izurieta traidor, entregaste o senador’’.
Até ontem à tarde, as Forças Armadas chilenas não se tinham pronunciado sobre a decisão do juz Guzmán. Uma declaração do comandante da Marinha chilena, almirante Jorge Arancibia, ao jornal de Santiago La Segunda, porém, quebrou o silêncio sobre o caso. ‘‘Quem semeia vento colhe tempestade’’, advertiu Arancibia.

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