Desafiante, numa cadeira de rodas, o ex-ditador chileno Augusto Pinochet foi notificado oficialmente ontem pelo juiz Graham Parkinson de que é réu em um processo de extradição da Grã-Bretanha para a Espanha, onde é acusado de vários crimes contra a humanidade durante o período em que governou o Chile com mão de ferro, de 1973 a 1990. ‘‘Não reconheço a jurisdição de nenhum tribunal que não seja o de meu país para julgar-me sob as acusações mentirosas da Espanha’’, disse o general da reserva ao juiz, numa declaração traduzida para o inglês.
Vestindo um terno marrom, camisa branca e gravata dourada, o ex-ditador respondeu ao escrivão quando este lhe pediu que se identificasse: ‘‘Sou Augusto Pinochet Ugarte, fui comandante-chefe do Exército, capitão-geral do Chile, presidente da república e, atualmente, sou senador da república.’’
A audiência, que marcou a primeira aparição pública de Pinochet desde sua detenção por autoridades britânicas a pedido da Justiça espanhola, em 16 de outubro, durou cerca de meia hora e foi considerada um marco histórico legal.
As condições da liberdade condicional foram levemente alteradas, e agora o ex-ditador pode andar nos jardins da sua mansão alugada em Londres. A próxima audiência será dia 18 de janeiro.
Simultaneamente, em Santiago, uma mensagem de Pinochet, considerada seu testamento político, foi lida durante a reunião do Conselho de Segurança Nacional, convocada pelo presidente chileno, Eduardo Frei, para analisar a crise aberta com a prisão do general.
Na carta, o ex-ditador oferece sua versão do sangrento golpe que liderou contra Salvador Allende, em 1973. ‘‘Nunca desejei a morte de ninguém e sinto a mais profunda dor pela perda de tantas vidas’’, diz Pinochet. ‘‘Mas o clamor dos cidadãos golpeava a porta dos quartéis pedindo nossa intervenção e as Forças Armadas não destruíram uma democracia exemplar. Tudo o que fizemos foi evitar que o país se desintegrasse nas mãos daqueles que pretendiam submetê-lo à órbita marxista soviética.’’
O ex-ditador declara-se inocente das acusações que lhe fazem ‘‘vários países europeus’’, atribuindo-as a ‘‘uma maquinação política e judicial arteira e covarde’’.
Na terça-feira, a Câmara dos Lordes, máxima instância jurídica britânica, estudará um pedido da defesa de Pinochet para que seja revisada a sentença do dia 25, que negou ao general o benefício da imunidade.
Os advogados de Pinochet argumentaram que um dos cinco juízes, Leonard Hoffman, tem vínculos com a entidade de defesa de direitos humanos Anistia Internacional.

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