Os primeiros dados da caixa-preta do Concorde que caiu na terça-feira, nas proximidades de Paris, causando a morte de seus 109 ocupantes e de outras 4 pessoas em terra, indicam que o piloto foi informado das chamas em um dos motores ainda antes da decolagem, mas tarde demais para abortar a operação de subida.
O experiente piloto Christian Marty tentou então ir adiante com o procedimento de decolagem para tentar uma aterrissagem de emergência no aeroporto de Le Bourget, usado para vôos executivos e localizado bem ao lado do Aeroporto Charles de Gaulle, de onde o Concorde partira.
‘‘Detenham a decolagem, há fogo em um dos motores’’, gritou, desesperado, um dos operadores da torre de controle. A velocidade do avião, naquele momento já se aproximava dos 300 km/h. ‘‘Subiremos e logo viraremos para voltar’’, respondeu o piloto.
O dramático diálogo foi registrado pelo gravador de voz de uma das caixas-pretas recuperadas ontem e transmitido a jornalistas pela promotora de Paris encarregada do caso, Elisabeth Serot. Nestes momentos críticos, segundo a promotora, os pilotos do Concorde teriam se decidido por um pouso de emergência em Le Bourget, o que exigiria um giro menor do que o necessário para retornar ao Charles de Gaulle.
Desde o primeiro momento, todas as testemunhas oculares do acidente de terça-feira e o próprio presidente da Air France, Jean Cyrill Spinetta, foram unânimes em apontar o fogo num dos motores como a causa aparente do acidente com o Concorde, mas a reação do construtor dos motores, a empresa britânica Rolls Royce foi imediata, advertindo ‘‘contra toda conclusão prematura’’.
A própria direção da Air France, por meio do porta-voz François Brousse, confirma que a pedido do comandante, o vôo para Nova York sofreu um atraso de 30 minutos para que fosse efetuada a mudança de uma peça no motor que pegou fogo. Como os demais Concordes, o aparelho acidentado estava equipado com quatro motores Rolls Royce Olympus 593s, cuja potência nominal alcança 170 toneladas e impulsiona o avião a 360 km/h em 25 segundos, depois de 1,5 mil metros de pista.
Os primeiros motores Olympus da Rolls Royce equiparam também os bombardeiros Vulcan da Royal Air Force e o Camberra que, em duas ocasiões, bateu o recorde mundial de altitude. A versão 593 que equipa o Concorde foi desenvolvida pelo construtor francês Snecma, mas a concepção desse tipo de motor é antiga, com cerca de 60 anos. Trata-se de um turborreator cujo princípio de funcionamento está diretamente ligado ao sistema das turbinas a gás. O primeiro vôo de um avião equipado com um motor desse tipo data dos anos 40.
Ontem, o especialista Germain Chambost disse que se o fogo de um dos reatores se transferiu também para um segundo reator, nada mais havia a fazer, pois dificilmente o aparelho desestabilizado poderia ser controlado pelo piloto. A quebra de alguma peça no interior da turbina ocasiona um efeito semelhante ao de granadas de fragmentação. As partículas de metal em chamas podem ter espalhado o fogo de uma turbina para a outra.

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