Os peruanos estão seriamente preocupados com o que vai ocorrer domingo no país. O presidente Alberto Fujimori, candidato ao terceiro mandato consecutivo, chega ao segundo turno da eleição como candidato único, ante a insistência de seu opositor, Alejandro Toledo, de não participar de um processo eleitoral que qualifica de ‘‘viciado’’.
Muitos consideram que o quebra-quebra de anteontem no centro de Lima – quando o Jurado Nacional de Eleição (JNE) rejeitou o pedido do movimento Peru Possível, de Toledo, de adiar a votação – foi apenas uma pequena mostra do que vem pela frente.
‘‘Há uma escalada de violência’’, disse Mario Arría Arce, gerente de um café do distrito de Miraflores. ‘‘Houve protestos com repressão, manifestantes de Toledo enfrentaram a polícia e protestos em Lima com coquetéis Molotov e bombas caseiras contra as bombas de gás lacrimogêneo. O que podemos esperar para domingo?’’
O prefeito de Arequipa – reduto de Toledo –, Manuel Guillén, tem prometido uma ‘‘revolução’’ para impedir que Fujimori fique no poder por mais cinco anos. O próprio Toledo conclamou a população a manter-se ‘‘de p钒, embora ressaltasse que tudo deveria desenvolver-se de forma pacífica.
Toledo tem conclamado a população a não votar amanhã, mas, como a multa pela abstenção sem justificativa é muito alta (116 novos sóis, aproximadamente R$ 60,00), aconselhou seus partidários mais pobres a anular o voto, marcando na cédula ‘‘não à fraude’’. Mas com a desistência da oposição, o caminho para Fujimori alcançar o terceiro mandato foi plenamente pavimentado.
A decisão do JNE de manter a data da votação foi dividida. Prevaleceu por 3 votos a 2. De certa forma, surpreendeu alguns analistas, que consideravam provável um recuo do governo nesse tema, levando-se em conta o tom mais conciliatório das declarações de fujimoristas nos últimos dias. Fujimori vinha declarando que acataria a sentença do tribunal, qualquer que fosse ela.
A favor e contra a postergação pesavam vários fatores, de acordo com fontes políticas e diplomáticas.
A favor: o temor de uma revolta de partidários de Toledo contra a apresentação de Fujimori como candidato único; as reservas feitas pela Missão de Observação da Organização de Estados Americanos (OEA) ao software desenvolvido para a apuração dos votos; as não tão veladas ameaças dos EUA e da União Européia de isolar economicamente o país ante a possibilidade de uma eleição contestável; e, finalmente, o antecedente aberto horas antes pela Venezuela, que postergara suas ‘‘megaeleições’’ por problemas técnicos. Contra: o sucesso da simulação de eleição que testou o software do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (Onpe) na quarta-feita à noite; a declaração do chefe da missão da OEA, Eduardo Stein, de que o sistema de informática do Onpe tinha apresentado melhoras significativas no mesmo teste; e, por fim, a resistência da chamada ‘‘linha dura’’ do fujimorismo, que considerava que o adiamento seria uma concessão ao que qualificava de chantagem política de Toledo.
A data de 28 de maio obedece a uma exigência da Constituição peruana. A Carta estabelece que o segundo turno deve ser realizado no prazo de 30 dias depois da data da proclamação oficial do resultado do primeiro turno, o que ocorreu em 29 de abril. Para mudar essa data, seria necessário que o tribunal acatasse interpretações duvidosas da legislação.

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