Gilles Lapouge
Agência Estado
De Paris
Um estranho ofício foi publicado pelo jornal semanal alemão ‘‘Der Spiegel’’: um documento secreto da Comissão Militar do Comitê Central do Partido Comunista chinês, em agosto de 1999, anunciava que a China estava preparada para usar armas nucleares contra os Estados Unidos por causa de Taiwan – a ilha chinesa que faz parte da China, mas jamais aderiu ao regime comunista de Pequim, e é protegida do governo norte-americano.
Segundo o documento chinês, em caso de problemas no Estreito de Formosa, fomentados ao mesmo tempo por Taiwan e pelos Estados Unidos, ‘‘Pequim deveria intervir militarmente o mais cedo possível, antes que tropas americanas estejam em plenas condições de agir’’.
Essa advertência surpreende. Na verdade, Pequim e Washington parecem ter superado a crise criada durante a Guerra de Kosovo, quando forças da aliança atlântica bombardearam, por engano, a Embaixada de Pequim em Belgrado.
Essa ação revoltou os chineses, mas dos dois lados houve, em seguida, um apaziguamento e foi assinado um acordo comercial entre as duas capitais a propósito da entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC). As próprias relações militares foram logo restabelecidas.
No entanto, a indiscrição do ‘‘Der Spiegel’’ deve ser levada a sério. Taiwan, a ilha chinesa nacionalista, vai realizar sua eleição presidencial no dia 18 de março. Essa eleição é sempre uma ocasião para Pequim dar um murro na mesa e lembrar que Taiwan pertence irreversivelmente à China.
A ‘‘Jane’s Defense Weekly’’, revista especializada em assuntos de defesa, observa que o programa chinês de mísseis se está desenvolvendo bem mais rapidamente do que o previsto. No ritmo atual, o Exército de Libertação Popular deverá dispor, em 2005, de 650 mísseis balísticos e teleguiados.
Acompanhando essas precauções militares, nota-se que a imprensa chinesa multiplica suas ameaças e incita as autoridades a dar ‘‘um xeque-mate no hegemonismo’’ de Washington.
Mas não é preciso levar muito a sério essas cóleras e ameaças de Pequim: trata-se de um hábito muito antigo que os chineses têm de gritar, uivar, anunciar o pior e, em seguida, voltar a dormir.
Por isso, mais do que essas advertências e notas de protesto, o que merece atenção são os preparativos militares pesados aos quais o Exército chinês se dedica no litoral do Estreito de Formosa.

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