José Meirelles Passos Agência Globo
Depois de ter sido eleito o Atleta do Século, Pelé foi escolhido pela revista ‘‘Time’’ como uma das 20 pessoas do século 20 que exemplificaram ‘‘a coragem, a exuberância, a capacidade de super-humano e a graça estupenda’’. Ele aparece na capa da edição desta semana sob o título ‘‘Heróis e Ícones do Século, tendo ao lado celebridades como Madre Teresa de Calcutá, Muhammad Ali, Lady Di, Che Guevara e os irmãos John e Robert Kennedy.
O artigo sobre Pelé, definido logo no título como ‘‘O Fenômeno’’, foi escrito por Henry Kissinger, ex-secretário de Estado americano e fanático por futebol. Depois de lembrar que o maior jogador de futebol de todos os tempos marcou 1.220 gols em sua carreira, ele chama a atenção para o fato de Pelé ter feito isso ‘‘com uma alegria contagiante, que fazia com que mesmo os times que ele vencia compartilhassem de seu prazer, pois não é uma desgraça ser derrotado por um fenômeno que não tem concorrência’’.
Como se não quisesse deixar dúvida sobre a importância do brasileiro, Kissinger lembra a histórica manchete do jornal ‘‘Times’’, de Londres - ‘‘Como se pronuncia Pelé? D-E-U-S’’, e um fato histórico: a suspensão, por 48 horas, da guerra civil na Nigéria, para que Pelé (com o Santos) disputasse uma partida em Lagos.
O fato de o brasileiro fazer parte da vida de tantos jovens admiradores de futebol que jamais o viram jogar, foi definido por Kissinger numa frase: ‘‘Ele fez a transição de superstar para figura mítica.’’
Kissinger contou ter visto Pelé no seu auge, comandando o Brasil na goleada sobre a Itália na final da Copa do México, em 1970, que deu ao Brasil o tricampeonato mundial, e mais tarde jogando pelo New York Cosmos, quando ‘‘já não era tão rápido, mas continuava exuberante como sempre: nessa época Pelé tinha se transformado numa instituição.’’
Kissinger traça um perfil de Pelé desde sua infância em Três Corações (conta que sua mãe não queria que ele se profissionalizasse) até tornar-se ministro Extraordinário dos Esportes, em 1994. E fala de uma reportagem em que um jornalista brasileiro dizia: ‘‘Se Pelé não tivesse nascido homem, ele seria uma bola.’’
Um presente de Deus. A reação de Pelé à reportagem de capa da revista ‘‘Time’’ americana foi de alegria, com uma ponta de orgulho pela demonstração da força que ele sabe ter sua carreira. Avisado da honraria por Jennifer, uma de suas filhas, que mora em Nova York, ele comemorou e aproveitou para desabafar, lembrando que o Brasil é o país que mais resiste ao mito Pelé. ‘‘Não dá para descrever o que sinto. Minha filha Jennifer mora em Nova York e faz 21 anos hoje. Ela me falou que era o melhor presente de aniversário que poderia ter tido. Para quem nasceu em Três Corações, engraxou sapato em Bauru, foi uma graça de Deus. Além da alegria de estar ao lado de Muhammad Ali, Che Guevara e Marilyn Monroe, Pelé não se esquece nem se conforma com as críticas que sofre em seu próprio país. ‘‘Uma reportagem recente de uma revista (‘‘Istoɒ’) apontou o Ayrton Senna como o maior esportista brasileiro do século. É preciso que uma revista americana venha falar do Pel钒, diz, negando que tenha mágoa disso. ‘‘Tenho pena’’. Para ele, a homenagem se compara a outras que já recebeu. Em 1981, ele foi considerado o Atleta do Século pelo jornal francês ‘‘Le Monde’’.

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