Temerosos das consequências eleitorais da grave decisão que a Câmara de Representantes tomou no sábado, ao aprovar dois artigos de impeachment contra o presidente Bill Clinton num voto apoiado por apenas um partido num Congresso em fim de mandato, contra a vontade manifesta de dois terços dos americanos, senadores republicanos evitaram ontem pedir a Clinton que renuncie e assumiram uma postura de cautela e comedimento.
O risco político que os conservadores assumiram ao insistir na destituição de um presidente popular como Clinton é sublinhado pela situação paradoxal criada pela aprovação do impeachment. O êxito, na Câmara, da campanha dos republicanos para tirar Clinton da Casa Branca, deixou o partido acéfalo, confuso e na defensiva. Menos de seis semanas depois de terem deposto seu líder máximo, o presidente da Câmara, Newt Gingrinch, numa rebelião provocada por seu fiasco nas eleições legislativas, em parte por causa de sua insistência no impeachment, os republicanos viram o sucessor designado de Gingrich, o deputado Robert Livinsgton, encerrar abruptamente sua carreira horas antes de votar pelo impeachment de Clinton, sábado, depois de ter sido forçado a confessar a seu pares que ele também traíra sua mulher.
Com seu nome vetado pela direita religiosa que controla parte importante da máquina do partido, Livinsgton fez o surpreendente anúncio de renúncia à candidatura à presidência da Câmara no planério, numa patética tentativa de ‘‘dar o exemplo a Clinton’’ que o líder da minoria, deputado Richard Gephardt classificou de ‘‘capitulação ao macartismo sexual’’ que domina Washington. Ontem à noite, os republicanos escolheram o deputado J. Dennis Hastert, de Illinois, para assumir a vaga de Gingrich e de Livinsgton. Um homem de temperamento afável, mas desconhecido da maioria dos americanos, Hastert é considerado mais um técnico do processo legislativo do que um líder capacitado para conduzir o partido ou ocupar o terceiro cargo na linha sucessória da República.
Se a aprovação do impeachment deixou os republicanos na defensiva, produziu o efeito oposto entre os democratas. Indignados com a recusa dos membros da maioria de permitir a votação de uma moção de censura contra o presidente e com sua obstinação em desencadear o processo constitucional de destituição de Clinton nos dias finais de mandato da Câmara, com os votos de apenas um partido, os democratas redescobriram na derrota um espírito combativo que não exibiam desde que perderam o controle das duas casas do Congresso, em novembro de 1994. James Carville, amigo de Clinton e chefe de sua campanha presidencial em 1992 resumiu ontem a disposição dos democratas no programa ‘‘Meet the Press’’, da rede NBC. ‘‘Essa gente vai pagar no ano 2000 pelo que fez contra a vontade do povo americano’’, disse ele, referindo-se aos republicanos.
‘‘A partir de hoje nós vamos nos organizar, vamos mobilizar e eu lhes garanto que haverá retribuição nas urnas e que nós tomaremos de volta o nosso país e a nossa Constituição’’, afirmou ele. Uma pesquisa divulgada ontem pelo New York Times sugere que Carville pode ter razão. De acordo com a sondagem, o prestígio dos republicanos nunca foi tão baixo nos últimos 14 anos e um em cada seis americanos acha que o partido perdeu o contato com a realidade.
A estratégia dos democratas de capitalizar politicamente a oposição popular ao impeachment e explorá-lo como arma para restabelecer a primazia que teve durante seis décadas na vida do país nas eleições presidenciais e legislativas marcadas para dentro de 23 meses está, no entanto, cercada de riscos. Nada garante, por exemplo, que os americanos, que estão mais do que cansados do constrangedor episódio, não se voltarão contra Clinton e passarão a favorecer sua renúncia como solução para a crise. E ninguém tem condições de dizer que rumo tomará o julgamento do impeachment no Senado, um ritual que foi usado apenas uma vez, há 130 anos, antes da era do rádio, da televisão e das comunicações instântaneas.

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