Curitiba - Internado num hospital peruano, o paranaense Wagner Roberto Andolfato Souza, 25 anos, está feliz por ter sobrevivido ao acidente do Boeing 737-200 da companhia estatal peruana Tans. Ele classifica como obra divina o fato dele ter conseguido sair com vida da aeronave, mesmo depois da primeira explosão que queimou parte do rosto e dos seus dois braços. Cansado pelo assédio dos jornalistas, Wagner atendeu ontem a reportagem da Folha de Londrina por telefone e por 20 minutos relatou tudo o que passou até que fosse conduzido ao hospital.

Folha Wagner, você se lembra em detalhes o que aconteceu no avião antes que ele caísse?

Wagner Lembro de tudo o que aconteceu até eu chegar no hospital. O avião passou por uma turbulência ao passar por uma chuva de granizo muito forte. Como faltava apenas cinco minutos para a aterrissagem, nunca imaginei que algo estava errado. Não houve alerta sobre o perigo. Eu tinha certeza que podia chegar com vida no Peru.

Folha Quando você percebeu que algo estava errado?

Wagner Só percebi que o avião iria cair quando vi as árvores se aproximando rapidamente de mim. De repente, o avião estava abaixo das árvores. Senti um forte impacto. A aeronave estava parada. Consegui tirar o cinto de segurança e me levantar. Foi aí que aconteceu a primeira explosão da frente para o meio do avião. Eu coloquei meus braços no rosto para me proteger. Foi aí que queimei o rosto, os braços e as mãos.

Folha Você correu para onde? Como conseguiu sobreviver?

Wagner Eu comecei a procurar a saída de emergência com os outros sobreviventes que estavam nos fundos do avião. A porta estava aberta. Acredito que a aeromoça que estava nos fundos abriu a porta e foi a primeira a sair. Foi um empurra-empurra total. As pessoas tinham medo de novas explosões e queriam sair a todo custo.

Folha As pessoas não pensaram em salvar umas as outras?

Wagner Não. Apenas em um momento quando gritaram que uma criança estava dentro do avião. Eu e um peruano voltamos para tentar resgatá-la. Mas não foi preciso. Uma outra pessoa estava saindo com a criança no colo.

Folha Você imaginou que conseguiria sair do avião com vida?

Wagner Não. Na hora que eu vi o fogo vindo na minha direção, eu pedi a Deus para que me salvasse. É como nascer de novo.

Folha Qual foi a primeira coisa que você fez quando percebeu que estava vivo?

Wagner Olhei para o céu e agradeci a Deus. Tentei me esconder da chuva de granizo. As pedras de gelo batiam nas minhas queimaduras e doíam muito. As queimaduras nos braços e no rosto foram mínimas. Elas são de primeiro e segundo graus. Nem mesmo vão me deixar cicatrizes. Só podia agradecer.

Folha Vocês esperaram a ajuda dos socorristas no local?

Wagner Não. Caminhei cerca de um quilômetro num pântano, passando por banhados, para pedir ajuda. Fomos em três pessoas: eu, uma italiana e uma peruana. Conseguimos chegar até uma fazenda, onde o proprietário chamou um mototáxi (que é muito comum por aqui). O mototáxi nos levou até um posto de saúde, onde pedi um remédio para aliviar minha dor. Ficamos lá esperando que a ajuda viesse. No posto, chamaram um ônibus do aeroporto. O problema é que ele não conseguia chegar até o local da queda do avião por causa dos curiosos. Somente quando a Defesa Civil chegou é que fomos resgatados e levados para um hospital de Pucallpa (cerca de uma hora e meia de avião de Lima, capital).

Folha A viagem continua depois da liberação no hospital?

Wagner Não. Saindo daqui eu vou voltar para o Brasil. Quero voltar o mais rápido possível para ver minha família e mostrar para todos que estou bem. Acho que já conheci suficientemente o Peru. Estou vivendo novamente e quero compartilhar a alegria da vida com meus pais.

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