A estranha peça metálica de 43 centímetros apontada como a causa da tragédia de 25 de julho, quando 113 pessoas morreram na queda de um Concorde da Air France, pertencia a um DC-10 da empresa americana Continental Airlines. O DC-10 havia deixado Paris quatro minutos antes do supersônico – exatamente às 16h39, vôo COA 55 – com o mesmo destino, Nova York. A diferença de tempo era insuficiente para qualquer inspeção ou varredura da pista.
Segundo os responsáveis pelo inquérito, faltava no capô de um dos motores do DC-10 uma peça similar à encontrada na pista – fato confirmado na manhã de ontem pela direção da Continental. Essa peça foi a causa do estouro de um dos pneus do Concorde, deflagrando uma reação em cadeia de problemas que resultaram na queda do avião.
Uma varredura é feita várias vezes ao dia na pista do aeroporto para retirada de todos os detritos e elementos estranhos que se acumulam ali. Mas, como as decolagens dos dois aviões ocorreram num pequeno espaço de tempo, não foi possível realizar a operação. Naquele dia, a última limpeza ocorreu às 15 horas – exatamente 1h43 antes do acidente.
No sábado, em Houston, Texas, representantes da Continental Airlines e da Junta Nacional de Segurança nos Transportes (NTSB) constataram a falta da peça, que deveria estar instalada na cobertura de um dos inversores de potência do motor do DC-10. Nenhuma irregularidade ligada a ausência dessa peça foi detectada ou assinalada pela tripulação.
A direção da Continental informou que vai trabalhar em conjunto com os investigadores franceses para esclarecer definitivamente a questão.
A descoberta da origem da peça não vai alterar a decisão das autoridades francesas de manter a proibição dos vôos do supersônico. A comissão de inquérito quer saber como essa pequena peça pode ter provocado tamanho estrago e não concluirá seus trabalhos antes do fim do ano. Ontem, a Air France anunciou que é pouco provável que o Concorde retome os vôos antes de abril de 2001. E isso ainda vai depender dos resultados do inquérito oficial.
De posse de todos os dados da investigação, a Air France e British Airways (que também dispõe de supersônicos em sua frota) decidirão se haverá condições, inclusive comerciais, de recolocar os aviões em circulação. As empresas operavam com o aparelho na rota Paris-Nova York e Londres-Nova York, respectivamente.
Por enquanto, a direção da companhia francesa decidiu substituir o Concorde por um vôo subsônico na rota Paris-Nova York, oferecendo ‘‘serviços privilegiados’’ para atrair os passageiros que costumavam viajar no supersônico.
Esse vôo será feito inicialmente com o Airbus A-340, mas será substituído depois de alguns meses pelo Boeing 777, mais adaptado e com capacidade para transportar um número maior de passageiros.
Se a decisão de manter a suspensão dos vôos Concorde não foi alterada pela descoberta da origem da famosa peça metálica, isso poderá gerar uma disputa entre as empresas seguradoras, envolvendo também, a partir de agora, as que se ocupam dos aparelhos da Continental Airlines e mesmo da empresa Aeroportos de Paris. Estima-se em 2 bilhões de francos (cerca de US$ 500 milhões) o total das indenizações devidas aos parentes das vítimas do acidente.

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