Buenos Aires - Fugindo do tom imparcial dos últimos dias em relação aos conflitos na Líbia, o ministro de Relações Exteriores, Antonio Patriota, disse ontem que o governo brasileiro é solidário às aspirações do povo líbio para pôr fim à ditadura de mais de 40 anos de Muamar Kadafi.
''Presto solidariedade às aspirações do povo líbio por progressos institucionais, econômicos e sociais, por buscar formas mais modernas de governança. Nas últimas décadas o país foi submetido a um governo autocrático'', declarou.
Sobre a possibilidade de o Brasil dar asilo ao ditador, que teve ótimas relações com o ex-presidente Lula, Patriota afirmou: ''Não está em consideração receber Kadafi no Brasil''.
O ministro passou os últimos dois dias em Buenos Aires em reuniões de chanceleres da Unasul (União das Nações Sul-Americanas) e do Focalal (Foro de Cooperação América Latina-Ásia do Leste). Apesar de convocado para tratar das medidas da região diante da crise financeira internacional, o encontro terminou pautado pelos conflitos na Líbia.
''Como região democrática, estamos ao lado das aspirações por liberdade e democracia'', disse o chanceler brasileiro. Ele afirmou que há convergência entre os países da América do Sul em relação a alguns pontos, como o papel da ONU, sobretudo do Conselho de Segurança Nacional, na promoção da paz e da segurança na Líbia pós-Kadafi.
O chefe da diplomacia brasileira repetiu que vai esperar uma decisão da ONU antes de legitimar um eventual governo rebelde, embora tenha reconhecido que o Conselho Nacional Transitório (CNT), comandado pelos líbio que lutam contra Kadafi, seja um ''interlocutor válido no atual momento''.
''Qualquer que seja o (futuro) governo, ele deverá ser de transição, para organizar eleições e proporcionar à população condições de maior participação nos destinos do país'''' concluiu.
Provavelmente a ONU decidirá sobre o caso no encontro conhecido como Comitê de Credenciais, que será no dia 21 de setembro em Nova York e que precede a Assembleia Geral da instituição.
Patriota ressaltou que será essencial após a queda do regime de Kadafi promover uma reconciliação nacional na Líbia, ''pois é um país que está praticamente saindo de uma guerra civil''. Ele expressou preocupação ainda sobre as armas químicas e de destruição em massa existentes no país.
Ao finalizar a conversa com jornalistas brasileiros, o chanceler, mesmo sem ser questionado diretamente sobre a relação entre o ex-presidente Lula e Kadafi, comentou: ''O Brasil se considera mais amigo da Líbia que outros países, nunca utilizamos armas contra o povo líbio. E o país se distinguiu por se posicionar sempre ao lado da população''.
Luta contra os ratos
Novo áudio do ditador líbio, Muamar Kadafi, foi veiculado pelo canal de TV Al Orouba ontem. Na mensagem, ele convoca as pessoas a saírem às ruas para lutar contra os ''ratos'' que trouxeram desgraça para o país. Dessa vez, ele pede aos líbios que tragam mulheres e crianças para ''purificar Trípoli''.
Kadafi também pediu a todas as tribos líbias que lutem contra a ''intervenção estrangeira''.
A veiculação do áudio chega no momento em que rebeldes cercam um prédio próximo ao antigo complexo militar de Muamar Kadafi e dizem acreditar que o ditador esteja escondido em um dos apartamentos com seus filhos.

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