Pastoral da Criança salva vidas nas Filipinas
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segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Bianca Fraccalvieri<br> Especial para a FOLHA 
Manila Um projeto que nasceu no interior do Paraná e se espalhou por 22 países na América Latina, África e Ásia: esta é a Pastoral da Criança.
Há mais de 30 anos, o então arcebispo de Londrina, dom Geraldo Majella Agnelo, aceitou o desafio de implementar na região um programa de combate à desnutrição infantil articulado pela médica e sanitarista Zilda Arns. O município escolhido foi o de Florestópolis (Região Metropolitana de Londrina), que em 1982 apresentava os maiores índices de mortalidade infantil do Estado. De cada mil crianças nascidas vivas, 127 morriam antes de completar um ano.
O projeto consiste em aplicar técnicas simples, mas eficazes: acompanhamento pré-natal, cuidados com a alimentação, soro caseiro e vacinação. O modelo testado deu certo, se expandiu e hoje está presente em todos os Estados, em mais de 5 mil municípios. Nesses 30 anos, o trabalho da Pastoral evoluiu e um dos focos atualmente é o combate à obesidade infantil.
Mas esta ainda não é a realidade nas Filipinas, um dos países mais pobres da Ásia. Segundo dados do próprio governo, cerca de 25% da população vive abaixo da linha de pobreza, estabelecida em um US$ 1,22 por dia. Neste contexto, a Pastoral da Criança encontrou terreno fértil e em 2014 está comemorando 10 anos de serviço no país.
A metodologia é a mesma consolidada em Florestópolis: os cuidados começam ainda na gravidez e prosseguem até que a criança complete 6 anos. Com os ingredientes locais, fabrica-se e distribui-se gratuitamente uma espécie de farinha nutritiva a multimistura para prevenir a desnutrição. Mães e crianças aprendem cuidados básicos, como o simples fato de lavar as mãos antes das refeições. Outro ingrediente que faz da Pastoral um sucesso em todos os países em que está presente é a escolha das voluntárias que atuam no projeto, que saem das próprias comunidades atendidas. As mães engajadas participam de cursos, palestras e visitam as casas cadastradas pela Pastoral, formando uma nova rede de contatos e amizades. O resultado é o aumento do autoestima das mulheres, com o consequência benefício de toda a família.
"Nós tivemos o caso de uma mãe, que era simples dona de casa, e que resolveu ser voluntária da Pastoral. Sua motivação cresaceu a tal ponto que hoje ela é a secretária da Prefeitura de Manila para assuntos relacionados à saúde da mulher. Perdemos de um lado, pois agora ela não consegue mais conciliar seu tempo com a Pastoral, mas ganhamos de outro", comemora a Irmã Terezinha Kunen, natural de Santa Catarina, que levou a Pastoral às Filipinas e hoje é a coordenadora nacional.
Atualmente, as voluntárias acompanham cerca de 4 mil crianças e 2.800 famílias. Como no Brasil, a Pastoral nas Filipinas também diversificou os serviços prestados à população, de acordo com suas necessidades. As famílias dos bairros mais pobres seja na capital, Manila, seja em cidades menores, vivem em casas de um único cômodo. Mãe, pai e filhos que normalmente são numerosos dormem todos juntos. Os casos de abusos e incestos são frequentes. Quando a Pastoral se depara com esses casos, aciona o Conselho Tutelar do bairro: "Nós denunciamos esses casos aberrantes, onde os pais abusam das filhas, o avô abusa dos netos, o irmão mais velho abusa da irmã. Nós denunciamos porque estamos aqui para levar vida e vida em abundância para as pessoas. E por uma questão de justiça também. Não podemos ficar calados, de jeito nenhum. Nós denunciamos para o serviço social do governo, que em seguida vai averiguar o problema. Se a família quiser levar o caso avante, o responsável acaba na cadeia. Mas se a família optar pelo contrário, ela tem que assumir o problema que já foi detectado", explica Irmã Terezinha.
Implantar a Pastoral nas Filipinas não é fácil, pois o país é formando por mais de sete mil ilhas. Recentemente, Irmã Terezinha e um jovem coordenador regional, Edgar Ebid, concluíram uma missão em Mindanao, sul do arquipélago única região filipina de maioria muçulmana (90% dos filipinos são cristãos). Já em Olongapo, ao Norte de Manila, funciona uma das comunidades mais ativas da Pastoral. Trata-se da cidade com uma forte presença, cerca de 20% da população, de norte-americanos, pois ali os Estados Unidos mantêm uma base naval, "herança" da ocupação durante a 2ª Guerra Mundial. A cidade se divide entre a zona portuária e as montanhas, onde vivem autóctones e sobreviventes da erupção do vulcão Pinatubo, em 1991. Na região, um dos principais desafios da Pastoral são as crianças que nascem com problemas físicos e mentais. Edgar Ebid, no entanto, é otimista e assim motiva a sua missão: "Paradoxalmente, nós trabalhamos para que em nenhum lugar das Filipinas seja necessária a Pastoral da Criança".
os cuidados vão desde a gravidez até os 6 anos da criança


